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O PALHAÇO

PALHAÇO SEM RISO

Inventa um sorriso que, inventado, não tem dentes e mal tem lábios – mas engana. A tinta que envolve a boca, o nariz vermelho do tamanho de um belisco, a peruca feita de E.V.A. e a roupa colorida e farta sustentam a falsa alegria, desenham o falso riso, escondem a tristeza do olhar. Um palhaço triste! Não deveria ser difícil de imaginar. Acorda cedo, urina farta e barulhentamente, lava as mãos, escova os dentes só para não os ver podres, lava o corpo e o cabelo, bota o jeans, calça a bota, veste a camiseta que deveria ser branca e que já se fez transparente, penteia os cabelos e pega a mochila na qual se escondem seus acessórios. É o que é, mas o é em segredo. Chega ao pronto-socorro. Ala infantil. Entra homem no banheiro, sai palhaço ou arlequim – ainda homem, mas super, mas falsamente feliz, sem Colombina, sem nada. Para estar ali, não ganha um puto: trabalho voluntário feito por quem mal tem como se sustentar, sacrifício de quem é bom. Quando sai, não lhe dizem um “obrigado, Pedro”, pois nem sabem que ele é Pedro, não sabem da cor de sua pele, não conhecem seus passos. Apelidaram-no de Pierrot que não é Pedro, mas que também chora. Às vezes, muitas delas, antes mesmo de sair do P.S., é abordado por mães e pais que o convidam para o aniversário de um filho. Ele aceita. Pagam pouco, mas pagam. Já tem casa – herança dos pais que o queriam médico – então só se preocupa com comida e contas: não precisa de muito.
Depois que se veste de palhaço pela manhã, ele só se desmascara à noite, quase à madrugada: se não têm festas ou inaugurações, fica na praça, faz malabares, conta piadas, faz com que outros riam. Quando uma lágrima risca seu rosto e mostra o tom de sua pele, esconde-se, retoca ou refaz a maquiagem, olha nos seus próprios olhos e ensaia maneiras de disfarçar a tristeza do olhar. Ele não visita o pronto-socorro em vão: os pais o queriam médico, queriam que ele estancasse e curasse a dor alheia, queriam dele um herói e, por esse propósito, arruinaram o dinheiro da família: economizaram até o que não tinham, venderam terras que tinham e, com o suor de anos, acumularam o suficiente para mantê-lo no curso. Mas Pedro não queria ser médico, desejava ser professor – mas nunca lhe perguntaram o que desejava e também ele nunca tentou dizer. Vestiu-se com roupas que não eram suas, maquiou seus sonhos e foi viver sonhos que não eram seus. Não se formou, não conseguia. Fracassou, fracassou... até que não deu mais. Parou com a graduação assim que acabou o dinheiro, seus pais não sabiam. Acostumado à maquiagem, resolveu se fantasiar e, escondido sob a pele de uma personagem, viver sua vida. Conformou-se. Não precisava. A desgraça dos pais foi ver a tristeza do filho. A tristeza do filho foi acreditar ser a ruína dos pais. Parou, pois, no conforto de ser o que é, mas em segredo. Parou nele a tristeza de nunca saber o que poderia ter sido.

A noite cai, cai o movimento. Entra no banheiro público e sente seus olhos lacrimejarem com tamanha podridão. Ali se troca, volta a ser Pedro e vai para casa. Entra, come algo, conta o dinheiro que fez – se é que fez – e vai para o banho. A massa que cobria seu corpo, a máscara que cobria seu rosto, tudo se desfaz e corre ralo a baixo. Os olhos frouxos e bolsudos, as pupilas dilatadas... a tristeza tão visível quanto o cansaço de fingir ser feliz. Seca-se, veste-se e procura o quarto. Sentado na cama, escreve alguns versos que vão parar na gaveta, como os outros. “Abro os braços para o mundo/Porque não abraço a mim/Oculto o sofrer mais profundo/Que escondo, do âmago, no fim/Palhaço rindo risadas/Faço-me faca escondendo facadas/E vivo assim, fingindo não ser eu para mim/Mas tenho uma esperança:/Ela mora no riso de minhas crianças”: eis o que escreve, justificando, de si para si, suas razões de ser. E deita. Lança todas as dores no travesseiro. É preciso esvaziar-se das dores de hoje para que possa rir os risos de amanhã. Sorri de verdade ao pensar em estar vivo no dia seguinte e, sorrindo, dorme sem saber que, fazendo o que faz, já curou muitas dores.  



OLHAR DE MENINO

Por que ele sorri? Por que esse sorriso tão... diferente? Ele me olha, eu sei. Mamãe, ele me olha. Que olhos tristes ele tem, mãezinha... você também vê? Ou é coisa minha? Tem umas dobras na pele, não tem? Qual o nome disso? Pé de galinha? Não sei. Só sei que debaixo do monte de branco no rosto dele tem um cinza como é cinza a borracha dentro do meu estojo, suja pelo lápis. É o grafite, diz minha mãe. Ela também diz para eu separar as coisas: de um lado devo botar os lápis, as canetas – tudo o que escreve; do outro, cola, borracha, tesoura – tudo o que não escreve. Mas eu sempre misturo tudo: lápis com borracha, jarra com garrafa, etc. Não sei para que separar tanto as coisas. Organização, diz minha a mãe – mas eu, se vejo só lápis com lápis e borracha com borracha, sinto como se houvesse nisso um erro. Não é errado, mãe? Não é errado alguém sorrir estando triste? Não é certo ser sempre sincero, mama? Não para os adultos, ela diz. Para os adultos é tudo tão diferente... eu, quando quero chorar, choro. E apanho por estar chorando sem motivo aparente. Ou apanhava. Nos últimos dias, meu choro é calado com brinquedos, cartões, visitas... neste lugar aqui é tudo diferente: as mães dormem em cadeiras e as crianças em camas, têm meninos e meninas no mesmo quarto, a comida não é a mesma para todos, a televisão não fica no canal que eu quero, posso dar toda minha comida para mamis e ficar com as bolachas dela no café (porque não gosto da comida daqui), as pessoas parece que encolhem quando olho para elas da minha janela... ah, o palhaço vem todos os dias, mesmo que eu não chame! Mas não sorri de verdade: finge o sorriso, mas tem olhos tristes. Não tem, mamãe? Mamãe não vê nada. Nem ela nem os outros adultos. Para as outras crianças eu não pergunto nada: mataria todas, mesmo que minha mãe diga que matar é coisa ruim – mas não me mostra como é ou como se faz para que eu decida por mim. Sou muito novo para decidir, vivo ouvindo. Novo demais para tudo.
Da janela, a vida parece de verdade. Aqui dentro é tudo... mãe, qual a palavra que se usa para dizer que algo não é de verdade? Não, mamãe, não é falso. Isso, artificial! Tudo aqui é tão artificial..., mas não sei o que é a verdade, vovó me disse. Mas também não me respondeu quando pedi para ela dizer o que é a verdade: um vá à merda menino bastou. Se eu pelo menos tivesse a idade de Susy, ela me daria uma explicação. Se tivesse a petulância dela, me daria uma bofetada. Vovó nunca se decide entre a resposta e o tapa... eu não me decido entre a macarronada e a lasanha – o jiló eu já desprezei. Não sei o motivo de minha decisão, porque sempre me sobra aquilo que não quero – os demais, ou eu não posso ou eu não posso. E fim de papo. Será que o palhaço (mamadí diz que ele se chama Pierrô) também só pode com o jiló? Coitado! Vou abraçar ele mãe. Olha mãe, agora ele está sorrindo de verdade! Será que não deveria ter dito isso, mãe? Ele está chorando... já era tempo de chorar, Pierrô! Eu sei do seu choro faz, ó: um tempão. Sempre falo para minha mãe desse seu semblante triste. Seu nome é mesmo Pierrô? Mamãe, sua mentirosa: ele se chama Pedro, igual ao santo barbudo da igreja. De que vocês dois estão rindo? Se for de mim, vovó saberá: ela diz que, de mim, só ela ri. Vocês vão ver só. Pedro? Às vezes, na noite, quanto vem a mulher de branco me dar remédio, colocar aquela água que fica pingando de um saco aqui do lado e perguntar se estou bem, eu penso: só não dou o braço a torcer por Pierrô, agora Pedro. Sabe por que? Quero saber onde está escondido seu sorriso, o de verdade, esse que você parece ter achado agora. Olhando para você agora eu penso que eu poderia abraçar você para sempre. Você volta amanhã?



PALHAÇO DE AÇO


Palhaço de aço
Herói do cansaço
Com risos no braço
Herói de aço
Palhaço no braço
Com risos de cansaço
Palhaço que faço
Com risos de aço
E crianças no braço
Palhaço é disfarce
Para seu eu confinar-se
E viver sem apresentar-se
Palhaço-tristeza
Que ri com destreza
Disfarçando a aspereza
Do coração
Palhaço de palha
Se queima, mas não falha
Em sua missão
Traz risos que acalma
É medico da alma
Com estetoscópio na palma da fé
Palhaço que é de aço
Do jeito que faço
Não é um qualquer
Palhaço que chora,
Que disfarça agora,
Já foi, outrora,
Criança também
Ser pequeno convém
Porque só os pequenos veem
A verdade – amém
Palhaço que em si não cabe
Palhaço que sabe mais do que ninguém
Palhaço que faço, refaço
Construo em aço
A dor disfarço
Em risos sem sal
Palhaço, afinal, é gente
Que sente,
Que fica descontente,
Que mente as coisas do coração
Palhaço-tristeza
Que esconde a aspereza
— Por que não? 

Comentários

MAIORES ACESSOS

Caminhada da Fé

Ah, almas tantas! Resolveram, todas, caminhar rumo ao céu – e essa caminhada não permite apego àquilo que julgam ser seu, é preciso se desvencilhar de tudo e apegar-se ao motivo primeiro que fez com que estivessem ali: a fé. Ah, almas tantas! Cantam, intercedem, prosseguem! E que há de ser feito, senão prosseguir? A vida não nos permite paradas – nem frente às dores, aos medos, às desesperanças e ao cansaço: os olhos se lançam ao infinito, redescobrem horizontes, enxergam motivos para continuar. Ah, almas tantas! Estão no chão, mas é para o alto que saltam, é o alto que buscam – e o alto é bem aqui, dentro de mim, no mais profundo e não na facilidade da superfície, no âmago. Por que seguem juntas? Porque uma é sustento para a outra e, também, se a uma faltar a energia, a força das demais é suficiente para mantê-la de pé. Há almas nas janelas que assistem as outras passarem – e, por assistirem, passam com elas. Com elas, velas e rosas para abençoar a passagem dos demais: são almas …

Cansado, outra vez

Estou farto da Literatura: ou se fala de amor ou se fala de ódio – em alguns casos, de nenhum deles, mas o resultado é igualmente fatigante. Não tenho mais energias para isso, não tenho mais energia para nada: estou cansado de tudo isto, de tudo isso e de tudo aquilo. Tudo define bem o que me desagrada, restando apenas o nada a meu favor. Meu tudo, talvez, seja nada; meu nada, talvez, seja tudo. Quem sabe? Eu não. Minha fadiga também já é assunto repetitivo, sem valor. Talvez seja um plágio de mim mesmo, tanto que recorro às mesmas falas, já gastas, já sem seu sentido primeiro. Nem a novidade, que eu tanto preguei e defendi, vem a meu socorro – estou sozinho, e é de praxe estar. Vê? Tudo de novo já nasce tão velho que me desgasta. Já se sabe, desde a origem, o futuro de todo o mundo. Sim, sabe-se. Sei que vai crescer, se machucar, estudar, machucar-se outra vez, chorar, sorrir, estudar, trabalhar ou não trabalhar, perder o emprego ou nunca “encontrá-lo”, mais sofrimento, mais felic…

Àquela mulher

Há uma mulher vestida de chita. O que ela quer? Por que tão aflita? Há uma mulher de cabeleira presa. Dá para saber o porquê da tristeza?
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Essa mulher pariu o mundo Essa mulher é mãe do céu Ela vela pelo infecundo Derrama em tudo seu mel.
Quem é ela, tão pequena? Essa miúda, quem é? É aquela que não condena, Que dá motivos à fé.
Há uma mulher vestida de vida É dona do mundo, imunda não é.