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COTIDIANO

O amor me chegou como a chuva de hoje

O amor me chegou como a chuva de hoje, inesperadamente. Revirou a ordem das coisas, molhou os sentimentos que esqueci no varal na expectativa de evaporar as lágrimas que encharcaram minhas relações, levou meu discernimento como folhas numa enxurrada, fez nascer em mim um novo eu, verdejou meus horizontes, mofou os cantos da casa, irrigou minhas esperanças, apodreceu-me também. O amor me cegou como sol depois de um exame de vista. O amor me doeu, mudou minha forma de ser. O amor me corrompeu, levou minha inocência, o amor me desfez, refez – pintou e bordou. 
O amor me veio na forma de gente e foi embora sem forma nem cor. Foi, mas voltou. O amor, o meu, é pendular: desaparece pela manhã e volta ao cair da tarde – abstratamente, digo. Não sei como dizer, não sei o que dizer – digo, pois, o que me vem à mente e o que me rasga o peito. Falo daquilo que nem sei, mas finjo saber. Todos somos especialistas naquilo que nos dispomos a fingir que somos especialistas, mentira de quem pensa que sabe e não sabe, faz que entende, mas desconhece. Sou especialista em amor, no amor e por amor. Amor é um mar feito com o sangue da gente e só é bonito enquanto não damos conta disso – eu dei, tarde, mas dei (se é que em algum momento é tarde para alguma coisa).  
O meu amor – o primeiro, o único, o verdadeiro – nunca foi consumado, nunca chegou às vias de fato, nunca passou de um sentimento platônico, mas inevitável. E isto é tudo o que dele sei: ele não foi ou se foi, voltou. Voltou sempre numa risada que parecia prometer algo, num olhar que me enchia de esperança, num aceno que parecia querer se entregar a mim: balela. Partiu sempre no final do riso, no desvio do olhar, num aceno que não era para mim. O amor, o meu, o que eu desejava, sempre foi de todos, mas nunca meu. Se me falta algo, eu não sei. Talvez me exceda algo, não costumo pecar pela falta.  
Ontem o dia foi triste. Hoje está igualzinho a ontem. A mesmice das coisas me perturba e me derrota pela impossibilidade de fazer tudo diferente. Chega a doer a repetição dos dias, faz tremer o corpo e ranger os ossos saber do meu futuro – basta que eu olhe para o passado. As coisas não mudam e a felicidade não nasce das coisas que se repetem. Os erros que errei, erro todos outras vezes, repetidas vezes, o que é uma burrice que assumo, mas não destruo porque não sei como. As lágrimas são sempre as mesmas, mas hoje misturadas à chuva. A chuva é um bom disfarce: “Por que choras? ”, perguntam-me nos dias chuvosos. Para fazer companhia ao céu”, respondo. E ninguém questiona, mesmo que vejam em mim traços de insanidade. A insanidade é coisa minha de todos os dias, divide o espaço com a tristeza. 
O amor me foi apresentado de diversas maneiras, todas elas preservam suas estranhezas. O amor nos é tal qual nos é apresentado e, muitas vezes, o que se revela a nós não é amor. Ao menos é como penso. Uma vez aprendido o errado amor, saio amando errado ou nem amando, até que o amor me brota feito um soluço e me chacoalha o corpo de tal forma que não  susto que cure, porque o amor é, por si só, um susto. Se há susto maior que saber-se amando, é saber-se retribuído. E como saber se o amor que vai volta? Não volta. Não da mesma maneira nem na mesma intensidade. Não foi à toa que criaram o cupido, história que descende do mito grego de Eros, força nascida do Caos, filho de um deus com uma mortal, fecundado no dia do nascimento de Afrodite ou filho desta, a depender da versão – não importa. O fato é que o pequeno anjo endiabrado não carrega flechas à toa: elas existem para simbolizar o amor que se crava em nosso peito e permanece lá, aguardando, cheio de esperança ou vazio dela, a reciprocidade– tolice de quem não sabe que, se fosse para representar o amor recíproco, o Cupido carregaria um bumerangue. O amor não foi feito necessariamente para ser correspondido, isso é sorte de alguns, acaso de muitos. O amor depende. De que? De muita coisa. Ama-se de acordo com alguma coisa ou sem acordo com coisa alguma. Depende. E é tudo o que eu sei. 
Ah, amor... sem esperança, pintei-o eterno em mim. Ele deveria me fazer feliz, mas faz-me triste. Ele e a sequência das coisas que doem por não mudarem. É triste sentar-me e observar o céu enegrecido que se avança sobre mim numa fúria sem igual querendo que eu seja seu sol e perceber que eu não brilho, não hoje. Tenho meus momentos de luz, mas agora não é um deles. É triste perceber-me uma pessoa cheia de amor, mas só. Muitas vezes, nem eu me acompanho. E o amor se foi. Foi agora. Depois ele volta, quando passar a raiva ou a razão. Então, nesse momento, sentar-me-ei novamente à porta, chacoalharei meu corpo para frente e para trás, cravarei meus olhos no caminho que me leva até o amor que amei e esperarei. Quem sabe o amor faça a curva da esquina, sorria, pisque e acene para mim. Quem sabe, sem mentir para mim e para ele próprio, ele não enxugue minhas lágrimas com os cabelos e me reconstrua num abraço de almas que se precisam? Eu sei que não virá. Mas não me canso de esperar.  


Se eu já quis ser outra pessoa


Se eu já quis ser outra pessoa? Com sinceridade, não. É que, às vezes, nasce em mim um desejo de não ser quem nem o que sou, mas é momentâneo e falso. De que me valeria esse desejo se não há gênio no mundo capaz de realizá-lo? Ora, se eu fosse, por exemplo, Gabriel García Márquez, ele seria eu e eu o seria – logo, eu continuaria sendo eu, mas nele, e o meu milagre não aconteceria. E, ainda que me esvaziasse de mim e me dedicasse a ser outro, senão eu, será que, em algum momento, não me despertaria a consciência de estar enganando mais a mim do que aos outros? Molda-se, mas não se foge do eu. Como, pois, eu poderia ser outra pessoa? A mim, isso é impossível. Tenho que me virar com o eu que sou e fazer dele aquilo que quero ser, ainda que seja aparentemente inalcançável. Aparentemente. Sinto como se um mar de impossibilidades me cercasse, mas sei que aquilo que há, há – e se existe, quem sou eu para me vestir de ceticismo?
Hoje vieram me dizer que a vida é bonita e eu nem me incomodei – acreditei. Para alguns, ela deve ser mesmo – até para mim ela é, muitas vezes. Mas, por um dia ruim, rasgo o calendário inteiro. O que posso fazer se um segundo pode valer por uma eternidade, se ele pode destruí-la? A eternidade talvez seja mais uma fraqueza nossa, talvez seja nossa força. Quem sabe? Há quem saiba, disso eu sei – mas não sou eu. Prefiro e me conformo mais com minhas muitas dúvidas, porque as respostas me ferem muito mais por não responderem nada. Que reposta pode explicar a dor do mundo? Para certas coisas, a explicação não existe; para coisas certas, não deveria existir o equívoco, mas existe. Há tantos erros em poucas coisas que me perturba. Erros a meu ver, digo. Não me conformo com o tamanho das coisas, com as cores das coisas, com as coisas. A existência da barata, por exemplo, faz com que eu questione a minha. Biólogos que não me venham com mil motivos para a permanência desse ser horrendo no planeta, não quero explicações – talvez elas só aumentem meu nojo.
Se eu já quis ser outra pessoa... Cada pergunta! Sim, em alguns momentos eu quis. Agora, por exemplo. Por quê? Simples: para transar comigo – essa é uma sorte que nunca terei. Desfrutaria mil vezes da minha presença porque só ela me sacia. E, ao mesmo tempo, isso me parece tão podre que não quero mais. E, por ser podre e obsceno, eu quero de novo. E fica esse quero-não-quero de quem deseja, mas sabe que o desejo é lascivo demais. Disseram-me que o amor não vive sem o sexo, mas que o sexo vive sem o amor: antes de ouvir isso, eu pensava exatamente o contrário, mas essa nova forma de ver as coisas me aliviou todos os pesos dos ombros: para o sexo, não é preciso amor, só um desejo morno e morto que termina no gozo ou antes dele e que nos obriga a nos livrarmos do corpo que estava ao nosso lado depois de terminado o coito. Para que o sexo ocorra, é necessário apenas que as duas partes desejem o prazer e só. Agora, o amor – disseram – ele pode ser vasto, mas não basta, porque ninguém sobrevive à monotonia cortante cotidianamente. O amor é fogo e quer mais fogo. E, agora que disse isso, discordo de tudo o que eu disse. O amor só quer ser, só quer correr – nada mais. Ou será o oposto? Fico neste saber sem saber, que é assim que sei as coisas: não sabendo.
Se eu já quis ser outra coisa? Quis mais não ser coisa alguma do que ser alguma outra coisa. Fugir do corpo não basta quando a vida mais parece uma soma de desgostos. É isto a vida: uma soma das adversidades com aquilo que fazemos delas e aquilo que dá certo, mesmo quando errado. Não, não tenho a menor esperança de que alguém entenda algo do que eu digo. A esperança é um par que nunca se deitou comigo, não a conheço. Sei apenas do cansaço. O cansaço está comigo e eu estou com ele. O cansaço é tanto que me calo.


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