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ALGUMAS HISTÓRIAS

Anunciação

Há algo diferente no vento de hoje: vem mansinho, sopra por baixo e lança as folhas para a cima, lambe os vãos entre os dedos dos pés, entra pelo primeiro orifício que acha e sai pelo último que encontra, sustenta o rosto e assovia a revelação de que morrerei ainda neste dia. Ele não mente: sempre acerta em suas previsões – foi assim com todos na família. E, ainda assim, nunca faltou o semblante de espanto no momento do último suspiro de nenhum dos Enamorados do Bonfim.
A brisa que me acha a narina já não é a mesma: tem um cheiro de ferrugem, como se quisesse me mostrar que minha vida se desfaz tal qual um ferro oxidado. Não há em mim a menor vontade de partir, mas também não existe resistência em ficar: assim como o rio desagua no mar, a vida desagua na morte – é da própria natureza. Morrerei ainda hoje, não serei eu a mudar isso.
Ah, partirei feliz: oitenta anos completados ainda hoje e nunca precisei do amor para nada! Claro que me enrabichei com umas aqui, outras ali..., mas nunca houve a menor constância, nunca houve o menor desejo de permanência, nunca senti o coração saltar fora do peito – sabe-se que o coração, se bombeia o sangue, já cumpre todo o seu papel. O amor é a consolidação da fraqueza humana, esse ser dotado de carência desmedida e incapaz de ficar sozinho e em paz ao mesmo tempo. O ser humano não quer a paz, não quer o sossego: se busca amor e prazeres, é só porque sente a necessidade de inquietar-se e subordinar-se a uma porcaria qualquer para viver a ilusão da felicidade.
Oitenta anos, e só conheci um homem feliz: um engraxate que ficava, fizesse sol ou chuva, sentado num banquinho em frente ao cemitério municipal – ele parecia ser eterno, como se a cada sapato engraxado roubasse um décimo de vida da criatura que lhe cedia os pés e uns trocados. Ser lazarento: não importava quão ruim o dia estava, estava sempre mostrando a gengiva arroxeada e os sete dentes acinzentados! Todos amávamos e detestávamos aquele homem miúdo sempre de capuz e trajado de preto.
Posso dizer que me orgulho de mim: o velho guardião do guarda-cadáveres nunca me achou os pés, o amor nunca me achou o coração. Se fui feliz assim? Não está claro que não? A única alegria que tenho é me vangloriar desses meus feitos inúteis, já que não tenho ninguém e nem nunca tive a sorte de encontrar alguém. E, ao mesmo tempo, sou muito feliz e não sei o porquê. Repito: não tenho e nem devo ter constância – e eu também não me entendo e não me narro para ser compreendido por você: converso apenas para esperar a desgraçada da morte que não vem, embora o vento tenha me avisado que hoje é seu dia.
Depois de trabalhar a vida toda, depois de me cansar e suportar a tantas coisas que, se soubesse o resultado, nunca teria suportado, este descaso: no Brasil, até a Morte se atrasa! No meu dia de descanso ou danação, esta aflição da espera que eu nunca gostei de suportar. E ainda sinto o sopro que diz que eu morrerei, mas que também não me leva.
Não, não serei eu a tolerar esta desfeita: se a morte não me vem, darei um jeito nisso. Estou certo de que nunca retirei meu trinta e oito da terceira gaveta (a das cuecas). Não haverá tempo para remorsos ou saudade – de remorso e saudade é que não vou morrer. O vento não erra: se eu não voltar, é porque parti.



Mabel
Completei, há sete dias, cento e um anos e ainda estou bastante mais disposto que você: talvez eu nunca morra. Não tenho grandes posses, mas possuo netos que já são doutores, e bisnetos que já se formaram na faculdade – todos descendentes deste velho engraxate que passou a vida em frente a um cemitério juntando trocados e que, ao contrário do que muitos imaginavam, hoje possui todos os dentes, implantados pelas mãos de uma continuidade minha: Alfredo, meu neto dentista.
Minha vida se construiu às custas de trocados, às custas do amor de Mabel, às custas do meu sonho de crescer. Ah, como o amor paga todas as dores! Mas o adeus é sempre uma faca fria atravessando o peito: ontem disse adeus à minha ternurinha, jovem – apenas noventa e sete anos. De repente, encobriu-se em meu peito todo o significado da felicidade: sempre inteiro, sempre desejoso de tudo... sem ela, não sei quem sou. Claro que ainda me resta o orgulho de tudo aquilo que de mim (de nós) se desdobrou – um milagre pessoal, um presente de Deus – mas não consigo pensar em amanhãs sem ela – me chame de velho manhoso se quiser.
Nos dias em que só o cemitério me assistiu, tantas histórias escrevi! Gosto de pensar que muitos empregos só foram conquistados devido ao brilho que eu dei aos sapatos, à boa aparência construída das mãos de um sujeito que se vestia como a morte e que se sentia a própria vida. E não penso isso em vão: ouvi isso de várias bocas. Mas havia um homem que sempre me tratou com um ar de superioridade: um brutamontes, endinheirado, jornal debaixo do braço, ares de quem já devorara Marilyn Monroe. Posso apostar com vocês que era o sujeito mais infeliz do mundo! Azar o dele, que nunca aceitou meu sorriso – eu, ao menos, tive a melhor mulher do mundo ao meu lado.
Mabel, minha Maria Isabel! Seus cachos grisalhos caídos sobre as doces e singelas rugas de suas mãos eram fascinantes! E as mãos, miúdas e com os dedos já rijos, era o melhor afago que os meus dedos puderam receber. Seu colo, ah, era como o colo de minha mãe – prova de que o cuidado existe inteiro no amor. Como dormirei sem suas mãos nas minhas? Já não me sinto mais vivo como antes, instantes atrás: a ausência dela me consome.
Meus filhos logo chegarão com seus filhos que, por sua vez, também trarão os seus: sozinho não ficarei. Agora que minha esposa se foi, possivelmente me enfiarão a enfermeira que eu sempre recusei. Ou farão isso, ou quererão me levar com eles e me afastarão de todas as lembranças da mulher da minha vida – sei que não fazem por mal, mas a bondade em seus atos não me será saudável.
Em breve, vou conferir os sapatinhos de meu bem: ela nunca se calçava sem a minha aprovação: queria saber se os sapatos estavam, de fato, bons e impecáveis – sempre estavam, porque, quando ela raramente se descuidava de algum, eu logo dava um trato naquilo que vestiria os pés sutis de meu amor. Não se engane: quando ela descuidava deles, era só para dar alguma utilidade para seu velho, embora nunca o tenha admitido.
Não, não quero viver sem ela. O Cristo, da parede, parece que me ouve e pisca para mim. Não, ele não é de madeira. Meu peito está doendo e sinto minhas mãos tremerem. Será que é Mabel me chamando? Parece que a vejo e ela brilha mais que nunca. Será que eu vou? Será que...



Asfixia

Ouvi dizer que, há uns dezessete dias, o sujeito que fazia plantão na porta do cemitério morreu – o engraxate, J. Fernandes. Não havia mais o que viver: o sujeito assistiu às duas grandes guerras, à ditadura, aos impeachments... não precisava assistir mais nada, o desgraçado. Dizem por aí que morreu de amor, mas de amor é que não morreu: estava velho – e a velhice é a doença que mais mata. Se Deus pagar pelas horas extras, o cidadão já ganhou seu espaço no céu e o Senhor ainda ficará devendo uns trocados ao miserável.
Uma coisa é inegável: ele era um homem de sorte, porque, justo quando eu pensei em matá-lo, partiu. Na verdade, o desejo de esvaziar aquele cadáver de qualquer alma que ele pudesse ter, já fazia mais aniversários do que você: nasceu quando ele me roubou Maria Isabel.
Ela caminhava pelo bosque de chapéu na cabeça e vestido no corpo. Eu a seguia. Quando ela parou para colher uma rosa, eu já cheguei agarrando-lhe a cintura, que é como sei chegar em mulher. Mabel logo começou a chacoalhar seu corpo esguio como um cão chacoalha sua presa: escapou-me. Fugiu de mim e – que infelicidade – tropeçou em uma pedra e teria ido ao chão se o maldito engraxate não a segurasse. Ele não me viu, mas eu o vi e o odiei no mesmo instante. Deveria, claro, tê-lo matado ali mesmo – mas não o faria na frente de uma dama. E todas as outras chances que tinha, eram interrompidas por ela!
Todos os dias, como quem não quer nada, eu passava em frente ao cemitério com meu jornal sob as axilas e trajando meu Trench Coat bege. No bolso, que ficava à altura da cintura, eu carregava minha Colt M1911 .45 ACP, sempre pronto a dar fim à vida do engraxate. Mas, bastava minha mão roçar a arma, Mabel aparecia, impedindo-me de sacá-la e obrigando-me apenas a olhar meu inimigo de cima a baixo, ares de poucos amigos, como que ameaçando acertar com ele mais tarde. A hora do acerto nunca chegou.
Poucos dias antes de ele morrer, eu já tinha outra maneira de dar fim àquele ser: mandar-lhe uma garrafa do Casillero del Diablo com uma dose de veneno, como se fosse uma mensagem do próprio demônio – meu mordomo, Estevão, estaria encarregado de fazê-lo (embora tenha recusado quando lhe propus a ideia, ele acabaria por aceitar: é fiel como um cão). Mas não foi preciso: Deus mesmo encarregou-se de levá-lo.
Afinal, quem venceu fui eu: tenho posses, tenho poder, sou um verdadeiro Figueiredo – não só no nome, mas na imponência. Por muito tempo, fui a segunda pessoa mais rica da cidade: agora que o Enamorado do Bonfim partiu, não há outro, senão eu. E se ele pensa que Maria foi sempre a fina esposa correta, engana-se: nunca lhe contou o motivo de minha carranca e, se não lhe confiou tudo de si, não tinha nele total fé – o velho babaca morreu por alguém que não lhe abria toda a alma, porque, se ela escondeu isso, muito mais – queira Deus – há de ter escondido.
Ah, isso pede uma comemoração: Estevão já vem vindo com o meu Casillero – eu, hoje, ei de farrear como nunca fiz. Sorverei cada gota como tenho bebido a vida: gole a gole. E se eu morrer de bebedeira, não vou me importar: já ultrapassei os noventa anos.
Não pense que passei a vida todo solitário: casei-me com uma prostituta que, quando quis me deixar, matei sem ao menos me importar com os dois filhos que tivemos – e que não herdarão nada deste pai que nunca os quis. Até hoje, só Estevão, que pensa que deixarei todas as minhas posses a ele, sabe a real causa da morte daquela vaca. Se me orgulho em dizer isso? Claro que sim! Se me perguntarem se há remorsos, terei só uma coisa a responder: Non, rien de rien; non, je ne regrette rien. Tudo o que passou, está passado e isento de quaisquer arrependimentos: Deus, se quiser, que me julgue.
Parece que me falta o ar, sinto meus batimentos arrítmicos: asfixia. Esta sensação é muito parecida com a do acônito que eu queria pôr no vinho de J. Fernandes. Se for, de fato, o veneno, eu morrerei em instantes. Mas quem seria capaz de... quem seria capaz... capaz de envenenar-me? N... Não, ninguém seria tão... tão louco. Há de ser Deus me levando para o julgamento. Há de ser...



O mordomo

Matei-o da maneira com que ele queria matar a outro, mas não por ódio nem nada parecido: desde o princípio, soube meu lugar no mundo – minha profissão é servir. O assassinato é uma necessidade; o suicídio, outra. Se estivesse no meu lugar, possivelmente faria o mesmo – e não adianta dizer que não, porque eu também o diria até alguns minutos atrás: quando se consuma o fato, reduz-se o papo, nada mais há que ser dito. Alegro-me em saber que não existe criatura que possa, por merecimento, julgar-me; por não haver quem possa, biblicamente falando, acertar-me uma pedra. Isso também me entristece e perturba: o que está acontecendo com o homem?
O cadáver está prostrado sobre a mesa, já sem fôlego e rancor: a morte não nos permite o ódio, só nos traz a suma felicidade ou o sumo sofrimento – para quem adora ficar em cima do muro, alerto: cuidado, porque a morte só nos permite o oito ou o oitenta (quarenta e quatro, não existe). Logo colocarei meu corpo ao lado do corpo do meu senhor porque ele não aguentará a eternidade sem alguém que lhe entregue o jornal e a xícara de café – precisa de mim tanto quanto eu preciso dele: porque ele é o cérebro; eu, o corpo.
Eu sempre soube de todas as podridões de meu senhor: desde as masturbações que aconteciam sempre que a memória de senhora Fernandes lhe apegava à cabeça, até a incineração da prostituta que ousara querer deixá-lo. Mas também sempre me habitou o coração a certeza de seu carinho comigo: sua herança, toda ela, está em meu nome. E foi por ela que eu o passei para o mundo dos algodões doces: não para mim, que já nem posso gozá-la, mas para meus netos.
Eu já fui casado, tenho filhos e a infelicidade de saber que enterrei minha esposa quando ela ainda tinha seus quarenta anos: o câncer a levou. Prometi-lhe, em seu leito de morte, que cuidaria de nossa descendência e que faria todos eles vencedores, custasse o que fosse: nossos filhos, dois deles até mais velhos do que ela estava quando a morte lhe ceifou a vida, não passam de fracassados; meus netos, ignorância trajada de gente, em nada são expoentes, não conseguem entrar em faculdade, são a continuação de seus antecessores malogrados. Se não conseguem a faculdade pública, o que dizer da particular? Quem pagará? Não teve outro jeito: matei um homem bom para conseguir a herança. Valerá o esforço? Não sei, mas ao menos me restará a certeza de ter feito aquilo que podia.
O advogado do doutor Figueiredo, Lourenço Costa, logo chega aqui: eles tinham um assunto a resolver. Felizmente, ele sempre teve autorização para entrar e sair desta casa sem ao menos bater, desde que depois das seis da manhã e antes das dezenove horas – hoje, não haverá quem lhe abra a porta. Ele, ainda nos seus sessenta e poucos anos, saberá o que fazer: ler o testamento para a família do falecido e dar-lhes a notícia de que não receberão um puto. Para alguma coisa esse advogado mal-acabado teria que me servir!
A garrafa de vinho ainda está sobre a mesa... um brinde, meu senhor! Encherei a taça, matarei a sede e a vontade que acumulei durante toda uma vida. O acônito se encarregará do resto. O clima parece pouco agradável para a Morte: não quero que ela pense que não a recebi bem. Colocarei uma música, é o que farei! Deve estar por aqui aquele CD que contém, entre as faixas, Encontros e despedidas. Chegadas e partidas são mesmo “lados de uma mesma viagem” – se eu vim, terei que voltar. Furtei um pouco da vida presente nos potes de Deus, devolvo mais do que peguei. Se nada na vida é de graça e se quase tudo é desgraça, espero que com a morte seja diferente. Um gole, um adeus. Algum dia nos encontraremos. Até lá!



Encontro

A morte anda querendo levar toda a terceira idade para junto de si, como se o senhor Enamorado tivesse aberto, com seu suicídio, os portões do inferno. Não é bom provocar a morte: sempre que se sente ofendida, ela cobra um preço caro: sai por aí varrendo e ensacando todas as esperanças, toda a virilidade, toda a vitalidade – é o seu trabalho, é bem verdade. Enamorado, Fernandes, Figueiredo, Estevão... quem será o próximo?
O falecimento do meu cliente e seu mordomo é que foi um caso estranho: suspeita-se de duplo envenenamento. Aí ficou a dúvida: duplo suicídio ou duplo assassinato? Ninguém sabe, mas todos – inclusive a polícia – suspeitam de que o culpado seja o vinho que estava sobre a mesa – que eu, aliás, quase tomei, mas desisti de provar quando dei de cara com os cadáveres (seria uma falta de respeito enorme e quem sabe se perdoável).
A morte chega como o outono.
Eu quem leu o testamento do senhor da mansão para as famílias (Figueiredos e Estevãos estavam convocados para a leitura) que eram só dentes à mostra, mal se importando para o adeus daquele que nunca se importou com a vida de ninguém – chumbo trocado. Mas, quando descobriram que toda a herança iria para uma igreja (a de Nossa Senhora das Dores) que o diabo do homem nunca frequentara, amarelaram os dentes: excetuando-se a mansão, que as duas proles teriam que dividir, estavam todos a Deus dará.
A morte engana a gente. O homem também.
Hup! Como é bom poder dizer que estou pouco me lascando com tudo isso! Quem sou eu para sofrer com as dores alheias? Deus, se quisesse que o homem fosse bom, não teria criado o fruto proibido. Blasfêmia? Talvez seja! E talvez, com tudo isso, eu esteja forçando a Sua ira, mas, se o faço, é só para estar mais próximo Dele, enxergá-Lo mais próximo de mim. Não consigo crer que alguém que me criou, assim, irreverente e petulante, possa ser só amor, só amor, só amor! Essa coisa toda adocicada me embrulha o estômago e faz mais mal ao meu fígado do que toda a bebida do mundo! O Deus que me criou, para não mandar o dilúvio à Terra, mandaria fogo.
Padre Pontes é que é homem que faz a morte ter fé na vida: correto, certo, sempre a serviço. Se vê uma pessoa sofrendo, toma, literalmente, suas dores – rouba para si toda a lepra. Não sei como homem tão desinquieto pode ser tão roliço e ainda preservar cabelo, ser tão requisitado e ainda resistir ao assanhamento das mulheres que o rodeiam e que só vão à igreja por causa dele – Deus mesmo, desconhecem. Sim, há muitas dessas na igreja, que endeusam o padre e eternizam o Cristo na cruz. Antes eu, pecador assumido. Antes o vigário: santo e incorruptível.
A morte é um não-ser eterno. Viver é eterna saudade.
Sinto-me vazio, solitário e frio. Minha esposa ainda não está em casa e meu filho, o único, já não volta para esta casa quando termina o dia. Anseio por uma visita que não vem, por uma resposta que não chega: quem a morte levará hoje? O céu está cinzento, isso para mim é prenúncio de desgraça – sou advogado, assisto e descubro cotidianamente desgraças mil – mas sei que só as tristezas sem sentido, mas, no entanto, naturais, chegam em dias como o de hoje.
Cachaça e torresmo: eis meus melhores amigos. Meu médico diz que o coração não aguenta, mas me sei melhor do que ele. Cachaça e torresmo: eis meus alimentos. Se quiser me fazer companhia, há sempre lugar à mesa. Aprendi com minha mãezinha: água, cachaça e torresmo não se pode negar. Não nego.
Ouço um barulho estranho... ouve também? Parece que tem alguém aqui dentro. Será Estela, meu amor? Não! É o filho da senhora que morreu: ontem, tirei um assassino, que matou uma velhinha só porque ela não tinha um tostão em casa, da cadeia. Seu filho, esse sujeito já da minha idade, ficou inconformado e me olhou com olhos de justiceiro... não tive medo. E agora cá está ele, camisa com três botões desabotoados e arma nas mãos. Devo me preocupar? Não! Mando mais cachaça para o peito – torresmo e cachaça não podem faltar.



Confissão

Quando eu ainda era menino, ouvi de minha professora que boas histórias são feitas com pretéritos imperfeitos – e acredito que ela estava certa: o tempo em que eu fazia... quando eu podia... eu era... ações que se prolongaram pelo tempo e, interrompidas, não se viram concluídas. Isso tudo me faz pensar em outra coisa: a beleza da Língua: aqui, em nossa prosa, você pode ver minhas mãos, olhar em meus olhos, contar com minhas expressões... se eu estivesse escrevendo algo, teria que lançar mão de todos os recursos que a gramática me oferece. Mas deixa disto: as pessoas amam falar, detestam saber.
Eu preparava a pia batismal quando ele chegou querendo confessar: havia feito algo que não era bom. Guiei o homem até a sala de confissões, pedi que se sentasse na cadeira que ficava em frente à minha, tranquei a porta – os pecados de um irmão não são alvos das curiosidades alheias. Estava atônito, ainda tremia, mais branco do que as velas do altar: algo grave havia acontecido. Olhei os olhos dele, olhei-os bem lá no fundo: eles tinham a mesma cor dos seus: a cor do infinito – infinitos mistérios, infinitos segredos, infinitas dores, alegrias infinitas também: afinal, tudo nesta vida tem infinitas faces.
Como padre, pelos votos que fiz, pelo Deus que me olha, eu não deveria contar o que ouvi – mas vou. Rezei, implorei por auxílio, e fui atendido: você chegou. Se o Pai trouxe você a mim, é porque sabia que eu não iria aguentar toda esta pressão: você é o confidente de todos nós, pelo que me disse. Então, não deve ser pecado o que farei – se for, pagarei por isso no momento certo.
Ele tinha baleado um homem! Matou, não queria matar, surtou. Não sabia o que fazer e correu atrás deste homem que vive a serviço de Deus e, como consequência, vive para servir o homem. Um único tiro, mas certeiro como a lança que foi cravada no peito de Cristo: um urro, uma lágrima, um jorro e um adeus.
Não teve como não matar, foi o que me disse. Foi um conflito, corpo a corpo, a arma na mão – um dedo no lugar errado bastou. Houve uma conversa, um discurso que visava a persuasão, típico de um advogado. No entanto, a Morte pulou a janela e invadiu a casa, enforcou a vida e a pôs dentro de uma caixa, saiu para a rua e se misturou às estrelas: lá no alto, a alma do defunto brilhará eternamente, como se fosse uma lantejoula brilhando no manto imaculado da Misericórdia.
Recordo-me quando um amigo meu, o médico Pompeu, disse-me que tudo na vida é feito de instantes (um segundo pode salvar vida, menos que isso pode levá-la), que a profissão vale o sorriso de um paciente quando vem a cura, e que a existência ganha significado quando nos esforçamos para eternizar a vida do outro. Meu ofício é justamente o mesmo: salvar homens e almas, reconstruir instantes, anular-me para que o outro seja: e isso é o que faz com que eu continue. Pompeu, Pompeu... grande homem! Adoraria marcar um encontro entre vocês dois.
Adilson de Souza já está ao lado de Deus. Lourenço Costa não queria, mas é um assassino. Claro que não será preso, tudo constituiu legítima defesa: tomava cachaça quando o sujeito invadiu sua casa, ofereceu seu torresmo, e ele não quis. Valeu-se da Dialética para tentar fazer Adilson abaixar a arma, mas foi inútil. Agarrou-lhe, portanto, as mãos, trocaram bofetadas, suaram, lacrimejaram e...
Nada mais há para fazer, senão rezar pelas almas. Inclua a minha em suas orações, porque já não sei se sou digno do céu. Decidi-me: não o sou, mas não deixarei de mostrar o caminho aos outros. Sacrificar-me pelo próximo, eis minha missão. Preciso ir, tenho uma missa a celebrar. Fiquemos com Deus!



Doutor Pompeu

Se já não posso cuidar de mim, imagine dos outros! A idade chegou e o Parkinson veio, mas posso me orgulhar de não ter diabetes ou hipertensão. Sei, no entanto, de que não durarei muito: ter noventa e dois anos já é como chegar ao fim de um livro, embora muitos ultrapassem essa idade – eu não ultrapassarei. Não saio no prejuízo, porque nunca pensei que passaria dos quarenta: não sei se era ansiedade por morrer, drama ou delírio meu – o fato é que, quando se tem a minha idade, a liberdade finalmente se manifesta, mesmo que o corpo já não a deseje tanto quanto a alma a quer.
As pessoas andam enlouquecendo, sou mais um na multidão – estamos todos desajuizados: o padre enlouqueceu por contar a uma pessoa (que ninguém sabe quem é) o “pecado” que todos conhecem, o do advogado que, desgraçado, ficou macambúzio por saber que suas mãos, que até então só foram usadas para convencer, mataram um homem. Aquele caiu das escadarias da igreja e quebrou o pescoço; este, deprimido que estava, morreu de desgosto: não está fácil viver nesta cidade.
Ufa! Sou livre, a idade me liberta! Agora posso dizer todas as coisas que, por educação ou vergonha, morreram na minha garganta.
Falarei de L. Rutherford, a mulher que preenchia e, concomitantemente, cegava os olhos dos homens. Era ou ainda é lésbica (não sei se ainda vive): sorte das mulheres, azar dos homens. Acredito que nunca houve nem haverá no mundo fêmea mais completa e mais animalesca ao mesmo tempo, tão cheia de garra, brutalidade vestida de curvas, olhos de felinos que devoram e excitam. Tinha cabelos curtos e ruivos, lábios meio finos, nariz firme e achatado, sobrancelhas que pareciam estar sempre estressadas. Vestia calça jeans, camiseta masculina e, nos pés, tênis, sapatão ou bota – despreocupação que atraía até mesmo o fiel engraxate que não sei se você conhece, mesmo que nunca ele vá admitir isso – nem mesmo na morte, se é que ainda vive. O fato é que ninguém nunca teria coragem de admiti-lo ou de olhá-la demonstrando desejo: ela provavelmente estaria armada e daria fim à vida de que ousasse fazê-lo. Que mulher, que força! Mesmo depois de casado, sonhava com ela...
Rutherford... ninguém sabe de seus amores, nenhuma de suas amantes – nem ela própria – confessaria seus relacionamentos: do que ela capaz, poucas sabem. Dizem que, depois que nasceu, nunca mais foi ao médico, o que pode ser verdade, já que nunca a vi em meu consultório – que, não serei modesto, era o melhor e mais frequentado da cidade.
Estou na cama e acho que não levantarei mais: é como se eu sentisse meu sangue, espesso, correndo por cada parte do meu corpo; como se ouvisse e assistisse as trocas gasosas que acontecem a nível celular; como se pudesse perceber, a quilômetros, a chegada de uma mosca maldita. Meu coração está todo sístole e diástole, contração e descontração. O que varia é o ritmo, cada vez mais devagar.
Sístole, diástole. Sístole. Diástole. Sístole... Diástole.
E, entre cada movimento do meu coração, parece que se passam horas.
Sístole.
Diástole.
Sístole.
Breve interrupção no ciclo.
Diástole.
E assim bate meu coração, sístole-diástole descompassado.
Sístole.
Um, dois, três segundos.
Diástole.
...



Saci de duas pernas

Estou farta de tudo isto! Absolutamente!
A vida, a cada dia, se arrasta produzindo um som muito semelhante ao das unhas ao riscarem uma lousa: arrepia-me toda. Existir já é estar abandonada num inferno – haverá outro pior do que este? A falsidade, a ausência de liberdade e o excesso de podridão me afrontam que é o cacete! Em qualquer lugar, os avisos que me ferem a inteligência: faça isso, não faça aquilo. Minha tradução de tudo isso – adote se quiser – é bem simples: seja uma máquina, porra!
Meu jeito de falar assusta? Assim até parece que eu sou indelicada e muito rude, mas não sou – se as pessoas me veem assim, é porque não me conhecem além da casca grossa do estereótipo (e, sinceramente, se não conhecem minha alma, estou pouco me fodendo para o que pensam). Você, no entanto, eu espero que possa visitar meu âmago, bem ao fundo, lá onde nem eu mesma jamais cheguei. Mas alerto: paciência, porque eu não sou flor que se cheire. E não me revelo com facilidade também: convença-me de sua lealdade ou eu lhe mato! Não tenho medo de fazer ameaças e muito menos de cumpri-las: vivi quase um século e nunca deixei de encarar ninguém nos olhos e nem me vi com medo de viva alma – e se não temo os vivos, os mortos é que não vou temer.
Não é fácil fazer o que fiz: ser lésbica e assumir isso. Nos dias de hoje, ainda ficou bem mais fácil do que na minha época – fico feliz de ter sido uma das pessoas que abriram o caminho, que abriram os olhos, que romperam as cortinas. Na primeira vez que descobri que amava uma mulher, quis que fosse mentira: senti vergonha, medo, pavor de mim, vontade de me revirar ao avesso e descobrir onde morava o meu erro. Aprendi logo: tudo em mim era absolutamente perfeito, eu não tinha erros nem nada – os meus desejos são parte de mim. Há quem diga que é pecado, e eu respondo: Porra, se for pecado sentir o que sinto e que não me lembro de, conscientemente, ter escolhido, que vá tudo à merda! Tantos matam, tantos roubam, tantos fornicam... eu, caralho, eu amei! Aos que pensam que eu tive várias mulheres na vida, que eu vivi de orgias e essas maluquices todas, peço que diga: tive só dois amores na vida: minha mãe e minha falecida mulher que, por questões de privacidade, não direi nem a você quem é.
Tive um vizinho, uma figura: Bartolomeu. Ele acordava antes dos galos e ia dormir antes das galinhas, mas sabia viver a vida. Não bebia, não fumava, não julgava – só sorria. Era religioso, mas nunca deixou de me dar a benção nem censurou meus palavrões – aliás, peço desculpa se feri sua sensibilidade com eles. Esse meu vizinho, um dia, levou meu bem e eu para pescar e quase morreu afogado no rio: começou fingindo afogamento e terminou quase se afogando de verdade, mas eu o salvei. O diabo do homem, em vez de me agradecer, olhou-me no fundo dos olhos para dizer: Diacho, mulher, eu já estava com o umbigo no céu!
Bart... ele não tinha preconceitos nem nunca me olhou com desejo, ele me amava de verdade, como eu era, como pessoa e não como um corpo, ele me apoiava! Era eu quem trocava as lâmpadas da casa dele, ele cozinhava para mim. Falava-me horrores do cigarro, eu me acabava de fumar – ainda me acabo. Precisei mudar de bairro, perdi um pouco o contato com ele... mas irei reencontrá-lo, nem que eu tenha que arrastar minha cadeira de rodas até o outro lado da cidade – ele paga a pena. Sinto-me fraca, mas sem olhar aqueles olhos morteiros, eu não morro. Ah, mas não morro mesmo.
A arma está comigo, a cadeira elétrica a ponto de bala... não corro perigo: ainda sou capaz de matar caboclo novo com a unha! Sempre fui atentada que nem um saci, pior que ele até. Se alguém, algum dia, resolvesse escrever sobre mim, me daria a alcunha de saci de duas pernas – e eu iria adorar. Fumo cigarro, fumo cachimbo, se bobear, fumo até maconha – é melhor não bobear com a velha, que ela é fera não adestrada.
Só o amor amansa uma alma agressiva. Só o amor revolta uma alma serena. O amor e suas manias esquisitas de desgraçar com a gente – e de salvar, e de acariciar, e de umedecer, e de fazer chorar, e de fazer gemer, etc – não quero me fazer obscena. Bartolomeu, me espera: aqui vou eu.
Há mais alguma coisa que devo dizer sobre esse amigo meu: nascemos da mesma entranha, por isso a amizade. Não, não somos irmãos de sangue – a vida nos pariu na condição de abandono: duas criaturas que cresceram num abrigo sendo, frequentemente, castigadas pelas freias rígidas. Chegamos lá quase juntos, saímos de lá quando começamos a trabalhar: ninguém adotaria duas crianças emburradas, que não rezavam o credo e que tinham a boca mais suja que já se viu. As freiras de hoje são melhores: descobriram, boa parte delas, que Deus e amor devem ser uma coisa só e morarem juntas no mesmo coração. Não acredito muito em Deus, porque me fizeram acreditar que, se ele existir, me odeia por eu ser quem sou; mas ainda tenho uma crença nele, porque, Bart me ensinou, Ele é amor e há de me entender. Quando eu morrer, quererei dois dedos de prosa com ele e esse meu amigo ao meu lado: ele me defenderá no primeiro momento em que em me apequenar.
Minha prosa já deve ter embrulhado seu estômago mais do que a torta que eu fazia – por isso, pico aqui a minha mula. Meu ex-vizinho e eterno irmão me ouvirá: coloquei o relógio, estou vestida. Deixo aqui o meu abraço, entrego-lhe um beijo na nuca: ainda terá notícias minhas, porque esta vida é porreta e do caralho: leva e traz mais do que as fofoqueiras da rua de cima.



Reminiscências

Rutherford esteve aqui ontem. Trouxe os cigarros (que acinzentaram seus pulmões), porque eles são sua família. Quem diria que viveria tanto, mesmo extrapolando nos maus hábitos!
Minha amiga e também irmã sempre adorou dizer que ama a mãe e que amou sua esposa – isso deixa muitos de cabelo em pé, já que ela também diz que cresceu em um abrigo. O fato é que ela nunca entra em detalhes a respeito de nada que conta de sua vida, porque é reservada e irritada demais para isso – mais isto que aquilo. Ela aprendeu a viver na defensiva. É que a mãe morreu quando ela tinha quatro anos, vítima de um homem que nunca merecerá ser chamado de marido ou pai: esfaqueou a mulher porque a janta não estava pronta e porque nunca a amou – a agredia, à filha também. Fez o que fez e sumiu, deixando a menina sem pais, sem paz, sem voz e sem avós – sozinha, pronta a ser levada para um abrigo como um cão abandonado é levado na carrocinha. Mas, em quatro anos, ela acumulou tanto afeto por aquela mulher! Eram, sob as agressões daquele brutamontes, uma coisa só a lutar. E é por isso que ela é tão seca ao falar de si.
Você já me conhece, senão não teria vindo me visitar. Logo, não lhe direi mais nada sobre o meu histórico, sobre o meu passado: falarei de meu presente, de meu agora – que é o que melhor alembro, já que não sou como Assunção, mulher de memórias mil.
“I have a dream”, devo dizer. A idade nunca foi a negação dos desejos, talvez seja a confirmação de todos eles. O corpo, esta caranga, já não funciona nem aos trancos – os dedos já não pinçam tão bem, os quadris já não chacoalham, e já nem sei se ainda há uma discoteca por aqui -, mas a alma, esta eterna criança, é agora que vive: chegar à minha idade é um privilégio sem igual, poder ser velho é poder ser feliz – ao menos para mim. Meu sonho não é só ver as cores se misturarem e formarem uma coisa só, uma voz só, um povo só; não é só assistir a humanidade alcançar a paz verdadeira por resolver, finalmente, entrelaçar as mãos. Meu sonho é maior que tudo isso, embora egoísta: quero saltar de paraquedas. Bobagem? Engula essa sua opinião! EU QUERO SALTAR DE PARAQUEDAS. A mim, essa certeza basta. E, se quero, eu vou. Talvez leve Rute (modo carinhoso de me referir a Rutherford) para saltar comigo – nem que seja a última coisa que façamos.
Eu já lhe disse que ela esteve aqui ontem? Sim? Por isso, não gosto de falar do meu passado: mal me recordo o que disse e o que deixei de dizer. As coisas, eu interpreto bem, mas no momento em que elas acontecem – depois, fico a me perguntar em que raios eu estava pensando. Bom, mas ela veio, mesmo. Jogamos truco, assistimos a vídeos na internet, rimos à beça! Isso me faz lembrar dos nossos idos tempos de meninos, aqueles que eu disse que não iria contar, mas vou.
Não fomos tão próximos desde o início: na primeira vez que nos vimos, possivelmente, detestamo-nos mutuamente, porque cada um trazia suas dores: ela, o assassinato da mãe; eu, bom, explicarei com mais detalhes.
Minha mãe era, apesar da sua época, uma mulher que se dava totalmente aos seus prazeres e parcialmente aos homens: saía com todos que tivesse vontade e era, por isso, maldita por todos que sabiam de sua existência. Paciência! Nunca se importara com isso, nunca se importaria. Conhecia um homem e, talvez na mesma noite, conhecia também sua alcova e seu ritmo: engravidava-se. Mas nunca quis ter filhos, nunca quis ter um homem só, nunca quis nada que pudesse simbolizar sua prisão. Então, mesmo que o sujeito soubesse da procedência de minha progenitora, talvez por ela ter algo de muito especial (não a conheci, isso quem me dizia era a vó Dita), queria assumi-la mais o filho. Mas a ela só interessava sumir: dava corda às esperanças dos pretendentes, passava a morar com eles – mas, bastava dar à luz, juntava suas malas e fugia de madrugada atrás de uma nova vítima. Talvez fosse ninfomaníaca, concupiscente. Fui uma das vítimas de minha mãe, só que com mais um detalhe: meu pai também não prestava. Fiquei, pois, com minha avó, que cuidou de mim até os meus seis anos de idade, quando ela morreu de causas que eu não sabia e ainda não sei.
Rute e eu, duas almas dilaceradas, não tínhamos motivos para nos simpatizarmos com as outras pessoas – ninguém naquele lugar tinha. No entanto, você deve concordar que cada pessoa reage de uma maneira à dor: nós dois escolhemos a revolta, e foi isso que nos aproximou. Quem nos via juntos, aprontando com os colegas e derrubando as freiras (e sendo castigados depois), diria sem sombra de dúvida que minha parceira se tornaria quem se tornou, mas não me reconheceria – eu me acalmei muito, conheci a Deus, a minha falecida esposa estéril, a mim mesmo, e posso dizer que perdoo a desgraçada da minha mãe.
Sinto que eu lhe contaria algo sobre minha infância com minha irmã de alma, mas estou velho, cansado... esqueci-me completamente. Por isso eu não queria revirar o passado, mas não tive escolha. Falei o que não devia, esqueci-me do que queria e estou feliz – outra dádiva da minha velhice é conseguir rir de meus erros, coisas que nunca fiz (nem na escola, nem na guerra, nem no trabalho, nem em nada: sempre me julguei mais do que aos outros, sempre me martirizei mais do que Deus fará – este tem misericórdia).
Fiz biscoitos esta tarde... se quiser comer, está no forno. Creio que o café não esfriou, mas não tenho certeza – sempre passo o café às quatro da manhã, que é quando acordo. Traga-me dois biscoitos, porque eu estou com fome e isso me põe estressado como nem o diabo jamais ficará. Não estão no forno os biscoitos? Procure, então, na terceira porta daquele armário. Isso! Tinha certeza de que estava aí.
Eu sou Bartolomeu, já lhe disse? Minha mãe... ah, isso já falei.
Então, não tenho mais nada para dizer – se quiser, volte amanhã. Minhas portas sempre estarão abertas, até que se fechem. Quer saltar de paraquedas comigo? Rute também vai, ela só precisa saber. Falando em ir, vá embora que eu preciso dormir. Leve os biscoitos. Não, não quererei mais. Tem mãe? Que sorte a sua! Diga que eu lhe mandei um abraço. Dê a ela o meu e o seu.
Nossa, parece-me que vai chover – dê um manjo no céu! Morro de medo de tempestades. Tenho um quarto de hóspedes, o que acha de se acomodar nele? Você é uma boa pessoa... fosse eu, deixaria o velho sozinho.



Miraculosa
Maria da Assunção Miraculosa: eis meu nome. Não é fruto de religiosidade nem nada parecido: meus pais eram ateus. Minha mãe era Francisca de Assunção; meu pai, Joaquim da Graça Miraculosa. A somatória dos sobrenomes dos dois fez meu nome – feliz ou infelizmente.
Sou escritora, poeta. Sou cantadora, indiscreta.
Não queira ser odiado por uma escritora: ela eternizará a sua desgraça. Eu, quando escrevo, faço isso para materializar o inferno que existe dentro de mim, inferno que quero que todos conheçam e experimentem. Não é e nada tem a ver com o inferno bíblico – é o meu mundo de amarguras e indigências que lhes mostro. Sou assim porque estou cansada da vida. Exauri-me de todas as formas, excedi todos os meus limites, provei de todas as provações, vaguei por todos os purgatórios que não são espirituais, engoli todas as atrocidades e fiz-me uma leprosa.
Felicidade... O que é? É o balanço da rua de minha infância vazio a balouçar com o vento – liberdade. É o meu joelho ralado implorando por um Merthiolate que ainda ardia. É a voz de minha mãe me chamando para a torta de domingo. Felicidade é a infância que eu sempre detestei, mas que é melhor que agora. Felicidade é o coração saltando fora do peito por um acontecimento inesperado. É agora: adie, e nunca será feliz.
Eu estou inconformada: ontem passou cá na rua um coveiro. Assoviava feliz. Chutou um gato (que hoje é meu, o Fernando), escarrou na minha calçada, virou o boné para trás e ia-se feliz. Disse-me “bom dia” e saiu rodopiando sua mais nova pá. Gritei-o, ele se voltou imediatamente para mim.
— Qual o motivo de tanta felicidade?
— Nunca estive tão útil: as pessoas têm morrido mais que nunca!
— E isso lá é motivo de felicidade, jovem?
— Quando se é coveiro, sim.
Como pode a morte de alguém ser a alegria de outrem? Isso é algo que deveria ter perguntado a ele. Acredito que, trabalhador que é, não gosta de ficar vagando à toa pelo cemitério enquanto palita os dentes. Sabe-se lá!
Como sou humana e carniceira como qualquer outra pessoa:
— Mas diga-me, afinal: quem morreu desta vez?
— Dois amigos cujos nomes eu não sei. Foram saltar de paraquedas, cada um preso ao seu instrutor. Os dois eram muito malucos e, apesar da idade avançada, ninguém diria que estavam para morrer. Saltaram, diz quem estava lá, olhando-se olhos nos olhos e...
— Que me interessa onde estavam os olhos deles?
— ... deram-se as mãos e abandonaram os corpos, ficando à mercê de seus instrutores. Com o salto ocorreu tudo bem, mas os corações deles não aguentaram a adrenalina e a felicidade: chegaram mortos ao chão.
— Pelo menos morreram como queriam! Vá trabalhar!
Se não me falha a memória – e ela não costuma falhar –, já morreram, deixe-me ver... Enamorado, o engraxate, Figueiredo e seu mordomo, o advogado, o padre, o médico e agora esses dois do paraquedas... nove pessoas! Pior: nove velhos, idosos, senis (chame como quiser, desde que não seja com desrespeito) como eu. Morreram os ricos, os pobres, os heterossexuais e os homossexuais: todos, afinal de contas, farinha do mesmo saco. Não sei o motivo que nos levou a tantas repartições: é tudo a mesma podridão, a mesma anarquia, a mesma carne fedida atirada à praça no sol ardente de um meio dia de dezembro. Sob a terra, decompomo-nos da mesma maneira – ensinamento comum a todos os lares.
A verdade é que todos morreremos, todos nós, sem exceção. Isso pode dar poema... anota aí o que eu vou dizendo, quem sabe dá algo bom. O poema:

Avisem a todos que eu morrerei
Sem realizar meus sonhos
(Não fui pássaro nem rei)
Avisem que partirei tristonho,
De doença, de velhice, de repente
(Sem ter tempo de dizer o que minh’alma sente).
Avisem que vou embora logo
E, sem Pasárgada, passarei
Sem passos, sem paz, sem amor e sem jogo.

Mas que fique claro que não vou agora
Vou-me embora na hora do quando
(Quando a morte vier me buscar)
Vou-me embora feito um vândalo
(Quando a vida eu derrubar)

Avisem a todos que todos morrerão (morreremos)
No momento inoportuno do encontro
Que, consigo mesmo, todos terão (teremos).
Avisem que partiremos maculados
E com o olhar assustado
Mas, quem sabe, felizes.

Avisem aos desavisados que eu partirei sem ter me encontrado.
Numa hora qualquer, como todos.
A novidade é que não vou agora.

Avisem que vou mais tarde
Quando a chama que arde deixar de arder
A hora certa?
Como saber?
Anotou tudo? Dar-lhe-ei o título de Comunicado, que é essa a sua função.
Se eu pudesse, se tivesse forças, se ainda estivesse jovem, talvez eu esquecesse essa coisa de ser escritora. Seria coveira, só para ter a emoção de preparar a terra para os meus companheiros de viagem. Coveira. Seria uma boa coisa. Um traje todo masculino, que são os mais confortáveis – assim como os eu-líricos. Ser homem, para mim, é usar a roupa que é mais largada e poder coçar o escroto e a bunda em público, como fazia o leiteiro de minha infância.
Das vantagens de ser escritora: prevejo a hora da morte. E sei que a minha se aproxima. Logo parto, parto em breve. Cruzar a avenida da saudade... deve ser algo bom. Sempre quis poder descansar em paz, mas o medo de ser inútil me perturba. Em breve, meu merecido repouso. Vou para o meu quarto: quero que me encontrem deitada e digam aquele tradicional “morreu dormindo, era uma alma boa”. Ninguém precisa saber se minha alma era boa ou não: basta imaginá-la.



A pá e o ponto

Tenho vinte e três anos e sou uma pessoa realizada: dou fim às histórias. Estou certo de que a trama de uma pessoa não termina com a morte: termina comigo e com outros como eu. Sim, faço parte da seleta casta dos que batem a enxada. Sou um coveiro.
Mais que qualquer outra pessoa, eu sei o valor da vida: vejo-a acabada todos os dias. E não há distinção quando chegam aqui: são crianças, jovens, adultos e idosos – todos necessitados de um lugar que os acolha. Porque a vida é ingrata: não importa o quanto acumulou e o quanto fez: não haverá espaço para você dentre as coisas que eram suas e terá que procurar o lugar comum, o senso comum: o cemitério. E, a partir de então, esse será o seu lar.
Crer que existe vida após a morte é uma esperança e uma válvula de escape que não possui semelhantes: eterniza-nos. E a nossa sede de sermos para sempre, de sermos poderosos nos marca. Aceitar o fim é coisa difícil, ainda mais sabendo que talvez o fim não exista. É ser muito categórico dizer que tudo termina aqui, na Terra. Se não sabemos de onde viemos, o que dizer do lugar para onde iremos? Antes e depois de nós são dois infinitos que não conseguimos enxergar, somos quase cegos: só podemos ver uma vida a nossa frente e um passado atrás de nós.
Assisti, nos últimos tempos, um encadeamento de mortes que muito tinham de parecido: todos idosos, todos desta cidade maluca, todos interligados – investigando a vida de um, chega-se ao outro, ao outro, ao outro... E quem sabe quem virá depois? Posso ser eu, pode ser que seja você. Ninguém sabe. Há quem diga que eram todos loucos, que falavam sozinhos – mas isso eu sei que não procede, louco é quem não sabe que eles eram todos sãos: falavam com você, é claro. Quem não lhe conhece, não pode compreendê-los.
Eu sou o ponto final no fim de todos os livros: com minha pá, lanço terra sobre aqueles que povoaram a Terra. E confesso-me feliz com todas as mortes: sem elas, eu não comeria e não alimentaria minha pobre mãe, que já está na senescência. A morte é a consumação de tudo aquilo que foi feito, de tudo aquilo que poderia ser feito – mas, até que me alcance, ela não é problema meu.
Não posso conversar muito com você: uma senhora que anteontem eu encontrei está vindo para cá – devo preparar de imediato o seu lugar. Não sei se enterro junto o gato que ela recém-adotara e que eu adorei chutar. Não gosto de gatos e muitos me perseguem por isso. Talvez só não me matam porque ainda não existe por aqui um outro que queria o meu ofício.
Eu sou quem dá às pessoas o último lar e o último torrão que elas terão em vida – ou não, nem os mortos andam tendo sossego. Se eu dou o lar definitivo, se dou o último abrigo, não sei. O que sei é que é hora de preparar outra cova. Faço desta pá de terra meu ponto final.



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