Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2017

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Os Cantos da Casa

Existe uma presença nos cantos da casa, Uma presença certa nos cantos em brasa Uma presença irrequieta que bate as asas, Uma presença enigmática nos vértices da construção Uma presença agora estática, no canto, no chão Uma presença matemática somada ao pé do fogão — E o fogão no canto da casa.

Amor sem esperança

Composição de Maria Clara sobre o poema "Discurso Fúnebre" de João L. Sabino.

Poema Caduco

Trago nos braços lassos meus fracassos Trago nos olhos refolhos um céu opaco Nos pés, caminhos avessos a mim No peito sem jeito, o sangue carmim Na cabeça travessa, saudades do fim Nos ouvidos feridos, um eco estridente Na boca caduca, nem língua nem dente Nas pernas sempiternas, não míngua a dor ardente (Mas, se é eterna a perna, é maior que a dor da gente) Nos glúteos idôneos, palmadas de outrora Na hostil genitália, o prazer e a represália Na alma, de agalma, resquícios de fé O homem, tão rude, se faz um Mané No nariz, infeliz, um triste odor Que se mistura, que agrura, à falta de cor Na pele se sente a infinita dor Na boca, tão morta, um leve amargor No ouvido o temido gemido de amor E, todo dia, a mágica sinestesia vira ao avesso a paixão E faz o coração, faz o dia, faz a vida, faz o estupor Que vira, revira, faz carne, faz alma, faz o que for De mim, de ti, do outro, do desgosto Da vida que, sem saída, se esvai E, num posso sem fundo lá do fim do mundo C A I




"Rolando Boldrin recebe o cantor e compositor Milton Nascimento (Três Pontas - MG), que canta "Morro Velho" (Milton Nascimento). Músicos acompanhantes: Wilson Lopes (violão), Bruno Migliari (baixo acústico) e Lincoln Cheib (percussão)."                                                (Senhor Brasil).

Rolando Boldrin declama "Carta à República" e Bituca canta "Morro Velho".