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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

Acorda

Converteu-se em pó os sonhos, Em dor o sentimento, Em lágrima o canto, Em medo a esperança. Tristonhos os que eram felizes, Arrependimento aos que tinham certezas, Espanto aos que tinham coragem, Vingança aos que já nasceram sofridos. Converteu-se em nada as diretrizes, Fez-se feiura as belezas, Embaçou-se a imagem, Negou-se o cuidado aos feridos. Escondeu-se a luz dos dias, Morreu-se, afogada em pus, a alegria Danou-se, na abstrata cruz, a magia Quebrou-se, já não mais reluz, a euforia. E dormem-se os homens, felizes; E contentam-se as mulheres, condizem; E brincam as crianças, não sabem da dor; Esforçam-se os idosos, atrofiam-se no desamor. E a massa, contente, Choca-se com meu pavor E a massa, dormente, Choca-se com meu ardor E a massa, ainda crente, Choca-se com meu ceticismo. E a massa, sorridente, É alheia ao belicismo. Acorda, massa fria! Acorda: há sangria! A corda está no pescoço! Acorda: já roem seu osso! A corda já se arrebenta! Acorda: a vida, assim, não aguenta!
Acorda!

Trem-bala, de Ana Vilela, por Maria Clara.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em suas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fez-me escabelo de teus pés Fez-me laço em teus cabelos Fez-me canto em teus ouvidos Fez-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fez teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deu origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de se arranhar Quando, eu não sei Se tua pal…