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Mostrando postagens de Setembro, 2016

Sufrágio

Não sou alheio à realidade:
Sou-lhe estranho, mas lhe sei e vejo-lhe
Não sou apaixonado pela a humanidade
Mas a sou, ainda que preferisse ser brejo.

Nunca decidi nada por mim mesmo
Nunca me permiti caminhar sozinho, a esmo
Não me permiti ou não me permitiram?
Faz diferença?
Fará diferença oferecer ou ser oferenda?

O mundo é uma coisa coerciva
Obriga-nos a ser, mas não nós: a massa
O mundo é bicho repressivo
Obriga-nos a dizer, mas não com nossa a voz: a massa.

Quando nasci tudo já era como é
(Importa se me aprazia viver no sistema?)
Cresci e não sei se ando com meu próprio pé
(Paciência! É meu o dilema!)

Matrizes, formas, raízes e normas
Réplicas, plágios, reprodução por toda a parte!
Ser o que é, agir na própria fé, será arte?

E infeccionam o mundo!
Cavoucam as feridas
Acertam o cerne da vida
Matam-na!
Matando-a, acertam-me
(Não me culpem a esperança moribunda).

Por que me sinto numa roupa apertada?
Por que percebo no peito a facada?
Por que duvido de tud…

Os porquês do escrever

Escrevo com a mesma naturalidade e independência com que morro, com o mesmo desapego do tempo que passa, com a mesma teimosia do amor que insiste em existir. Escrevo como quem morre, repito. Outra comparação não seria tão precisa: a única realidade equitativa e realmente irreverente que existe é mesmo a morte – se souber outra, avise-me. E o que escrevo é meus avessos, tão avesso que escrevo ao contrário: começo do fim, termino no meio, desenvolvo no início, organizo depois – às vezes nem isso, às vezes deixo a bagunça que é a única maneira que encontro de pôr em ordem. E o que é o avesso, senão o lado correto? Nele não há fingimentos ou imitações: carrega toda a nossa identidade - quer agrade, quer não. Escrevo não para criar, mas para destruir: espécie de iconoclasta, destruo as imagens do tradicional, o que prende aos tabus, que amarra ao pode-não-pode, menino-menina de nossos dias. Meu escrever é o vômito daquilo que comi e me fez mal, nauseou – e nauseio a tantos outros para v…

Da janela de um ônibus

Da janela do ônibus é possível perceber que a vida persegue a vida,
Que a vida é miscível à vida, que chegada é miscível em partida.
Da janela, o mundo nos contempla; da janela, tudo é palpável
E transpõe o limite aceitável da própria limitação:
Janela é o berço e os olhos do mundo.Da janela, é possível ver, lá longe, correndo e dançando, a vida
E, atrás dela, o comboio do samba em que anda a partida
Ainda mais para trás, uma mão de menino
Cada vez mais longe da vida
E mais perto do mundo
Mais perto do fundo
Distante
Ao lado
Do fim.A vida vai na ponta do verso; na ponta do verso, vai a vida
Mundo fica é no começo, incapaz de alcançá-la
Ultrapassá-la já nem tenta, não pode,
É a vida a puxar o bonde
O demais, atrásAlgum dia, um outro comboio, sem samba, mas tocando The Doors – The End
Trará, por motor descontente, a morte – que falta de sorte!
Essa sim, alcançará a vida numa corrida de instantes
Colocar-se-á ao lado dela, pouco distante
À distância de um só salto, menos até
Passará …

A imitação de um poeta

Não sou um poeta
E te peço socorro
Não sou um poeta
Não escrevo: escorro
Não sou um poeta
Não emociono, congestiono

Sentes sono?
É que não sou um poeta,
Só mais uma alma desinquieta
Que insiste em tentar dizer
E tudo distorce sem querer

Sou a imitação de um poeta
De um poeta que só eu sei
Que mora cá dentro do peito
Sem jeito, sem esplendor

Que ele sou eu, é claro
Mas é claro que eu não o sou:
Não sou puro - a vivência me contaminou
Mas, aqui dentro, há criança pura
Que o mundo não enfeitiçou

Sou plágio de mim mesmo,
De mim, sou imitador