Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2016

Sino dos Ventos

Fazem folia quando chega o vento: Sorriem, dançam... Entregam-se inteiros àquele instante E já estão tão próximos e distantes de tudo Que vivem o absurdo!
E é só deles aquele momento: Conversam, não morrem, não cansam... Entregam-se à abastança E já não lhes cabe o grito mudo: Querem o canto!
E cantam! Para louvar o vento que passa, Balouçam os sinos num bailado, Num ritmo todo sagrado E repicam!
Quando o vento se vai, Seu ritmo também se despede E resta neles a sede de ver o vento ventar. Porque o vento venta E o sino dos ventos o consagra – mas não sangra.
E é só o vento assobiar a melodia Para serem tomados de alegria E recomeçarem a cantoria. Folia!



Gente Estranha

Hipócritas! Déspotas! Ignorância trajada de gente! Desgraçados! Mal acabados! Infelicidade até na raiz do dente! Inescrupulosos! Ociosos! Massa fria, dura e descontente!
Como podem? Como podem? Existem por quê?
Porcada! Ralezada! Pobres ou ricos, indecentes! Cambada! Gente quadrada! Sabedores ou não, ignorantes!
Como podem? Aí é que está:
Não podem.

Estrelado

Sou estrela, vês? Olha aqui, mais para a esquerda. Agora vês? Talvez se subires naquela cadeira... Engano-te: olha à direita. Enxergas?
Virei estrela, olha aqui. Por que insistes em olhar para cima?
Sou estrela, mas no chão.

Gran Torino

Morri para salvar o menino
Que assumi como meu,
Morri para pagar meus pecados
E os pecados seus.

Morri para dar liberdade,
Aquela que a vida não deu;
Morri para sua felicidade
E para a desgraça dos réus.

Meu peito, sob o mais fino terno,
Hoje é feito de bala.
Salvei minha alma do inferno,
É do céu a voz que vos fala.

Morri para salvar meu menino
E deixei-lhe meu Gran Torino.

Morri para salvar Gran Torino,
Entreguei-o a meu menino.




Tingindo de negro a trama

Debruçados, forçados, testados e patéticos, escrevem. Em cada um, a crença absurda em algo mais absurdo ainda: a importância – de que, não sei. O não-sei-que não é meu, então dane-se! Escrevem por estudo? Nas palavras transcritas a rápidas caligrafias, respostas? Nenhuma, adivinho. Só mais e mais questionamentos. E a música funesta, horrível e melancólica completa o drama, tinge de negro a trama e me afronta! É assustador ver tantos como eu, no entanto, diferentes. Há quem creia em Deus, logo vejo: parecem rezar, clamar, implorar por palavras que não vêm, não veem, não sentem – assustam-me! Chico Xavier pluralizado aguardando espírito! E para quê outro, senão o seu? E uma voz, em meio a silenciosos gritos apavorados, oferece-me o jardim. Capim indigesto sob o vento morto! Seca-me suas músicas e irritam-me! E como é boa a fúria: põe-me a alma em cacos e escrevo em busca de remendos. Esqueci-me dos demais, felizes ou angustiados. Não me importam mais, porque eu sou todos eles: escrev…

Espelho

Sou eu e eu
Sou o tudo que acontece
Não há você - a união não deu
O sonho de ser dois não me apetece

Você sou eu, mas não parece
Somos, nós, dois inteiros que não se dão
Avessos, travessos, simétricos, patéticos!

Espelho de minha alma, assusta-me
Olhos que refletem os meus, revelam-me
Movimentos que me copiam, invadem-me
Não nasci para assistir-me.

Cacos, cacos, tudo caco!
Pedras, pedras, tudo pedra!
Opacos, opacos, tudo opaco!
Partidos, partidos, nada inteiro!
Arrebentei, a pedradas, o que me copia:
Espelho de mim, partia.

Inícios

“Viva cada dia como se fosse o último”, dizem por aí. Confesso que essa frase sempre me causou certo medo e estranhamento e não é sem esses sentimentos que a transcrevo. Não acredito que eu, sabendo ter minha vida quase finda, amaria e sorriria e brincaria mais (talvez e muito provavelmente eu faria o exato oposto, porque a certeza do término me sufocaria). Sufoco... é o que acontece quando nos rendemos à sofreguidão: a ânsia nos acelera o coração e o joga na nossa goela – entalado, mas pulsando em nossa garganta, ele clama para sair: se tivermos sorte, conseguimos engolir ou cuspir; se não tivermos, ele ficará ali até que resfoleguemos o último jato de ar. Não é que eu fuja à ideia da morte, não é que eu seja covarde. Manifestarei aqui minha defesa (ou talvez não, não sei se será realmente proveitoso dizer alguma coisa): gosto da morte e digo isso sem a menor culpa, gosto dela porque ela põe cada indivíduo em seu devido lugar – e não me refiro unicamente a debaixo da terra – mostr…

Metafísico

Hoje minha alma está despida de qualquer característica que possa ser chamada de sua. Olhou-me a carne como se dissesse: despeço-me. E foi-se. Aonde foi, não sei – mas foi sem nem olhar para trás. Hoje estou despido de qualquer alma que eu possa chamar de minha: quando ela me disse “vou”, respondi “vai”. Separei-me: agora estou dividido entre o corpo, que aqui está; e a alma, que voa longe - expulsei-a e nem olhei aonde ia. Agora sou um nem-corpo-nem-alma que não sei dizer: sou, talvez, um "talvez" e não mais que isso. Porque a alma que se foi já não é parte de mim, já não sou eu; e o corpo que ficou é só carne, quem sabe se viva, que já não manifesta nem sombra dos meus desejos - talvez apenas um resto podre de mim, fétido como um cadáver há muito esquecido queimando no sol. A vida ainda resta, eu bem sei - porque é a vida que fala. Resta a vida e resto eu, mas não sei onde estou nem onde ela está - mas estamos em algum lugar, perdidos entre o céu e o inferno, entre o corpo e …

Poema Vazio

Chegou sem que eu permitisse  Sem sequer saber minha idade Chegou sem saber quem eu era, Sem saber minha verdade. Onde encontrara tal direito? Quem lhe deu tal liberdade? 
Violado, não teve jeito Assustado com a realidade. Chegou sem Zepelim, Partiu sem não nem sim  Foi-se!  (Quisera eu ter uma foice). 
E agora?  Reinvento-me?  E agora?  Lamento?  E agora?  É minha a culpa?  E...  Um suspiro, uma virada de corpo  E um sonho já morto - o de ser meu. 
E a Esperança?  Será saciada só no céu?  Não sei...  Você sabe?  Se encontrar o eu e a tristeza que em mim não cabe,  Peço-lhe: traga-me aquilo que já me pertenceu.

Adeus

Hoje é um daqueles dias que eu chamo “propícios para a escrita”. Não me pergunte o motivo, não serei eu a dizê-lo: sei que está e, sabendo, já me contento. Tem dias que escrever me é tão natural quanto... quanto a morte, talvez – e não o digo para ser trágico, mas por ser a única verdade que não achei maneira de confrontar. Dia propício para escrever é também dia propício para ler e eu não consigo, muitas vezes, atender às duas necessidades: quando me dou a alguma coisa é inteiro – se for para ser em partes, antes não ser nada. Por isso, hoje apenas li e o que faço agora é apenas uma prosa rápida de quem já se doou ao máximo a alguma coisa, mas, sabendo que ainda sobrou algo no frasco que é, resolveu derramar o pouco do “eu” que restou. E se está propício para escrever e ler, quanto mais está para rezingar! Dia vantajoso não é sinônimo de dia perfeito: por vezes, é justamente o oposto: escrevo muitas vezes para traduzir descontentamentos – canto sentimentos, sejam bons ou ruins. E …

Clamores e louvores

Oh, Força Magnífica que reside em mim: Proteja-me de mim mesmo, que me subestimo Defenda-me dos desejos com os quais teimo Guia-me neste breu onde minha imagem se escondeu Retira-me este marasmo, alimenta-me, movimenta-me Aponte-me o caminho, não o encontro sozinho Esteja comigo, viva, não só dentro e calada
Não me deixe apagar, incendeia-me Não me deixe faltar, exceda-me Não me deixe morrer, suscita-me
Oh, Força Estrondosa que me habita, Liberta-me desta grita, Leva-me (para onde não sei) Fale em mim, por mim Anuncie-me num clarim.
Oh, Força que é minha e não me pertence Oh, Força das antíteses Oh, Força que me permite viver Oh, Força que me faz renascer, Força que eu sou, Força que me é Força que me veio, partiu-me ao meio Força que me faz respirar! Quem és tu, oh Força?
És força – e me basta.

Razões para escrever

Escrevo porque a dor existe: Se não o fizesse, morreria. Escrevo por que a voz fraqueja: Se não escrevesse, desistiria.
Não tenho opção: Ou escrevo ou corto os pulsos. Não tenho outra opção: Ou versejo ou fico avulso.
Escrevo porque não há outro jeito Tenho um nó no peito que só me oferece dois caminhos: Ou sou poeta farto ou sou mudo e infarto.
Estou triste. Tristeza também é força Ou a transformo ou vou para a forca: Não me foi dada outra alternativa.
Não me há outra possibilidade se não a Arte! Não tenho outra razão, senão ser poema em toda parte! Não fossem estas palavras, estaria agonizando:
Para eu sobreviver, só mesmo cantando!

Se ousasses me ouvir

E seu eu tivesse que dizer como está o mundo? Emudeceria? Sentiria um nó que me impossibilitaria de dizer palavra? Ou te diria a verdade? E que verdade te diria se não sei qual é? Diria que ando virado do avesso, Que no mundo me confundo, Que todos os meus sentidos estão escravizados E que de chá nem mesmo a colher? Pois é!
E se tivesse que dizer como está o mundo? Diria que anda burro e sujando as calças? Que vem caminhando sobre pregos e a pés descalços? Que mergulha num preconceito que fingimos que não há, por que é mais conveniente? Que fingimos uma igualdade que até existe, mas não é o suficiente? Que andamos alienados e armados da ignorância até os dentes?
E se tivesse que te falar de esperança? Diria que Rapunzel já não joga as tranças? Que ando seco e nem sei o motivo? Que só existo e nem sei se vivo? Que ela se suicidou numa ensolarada tarde de incoerências Em que se banhava de incongruências?
E se tivesse que falar de esperança? Diria que não suportou a dicotom…