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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Vou indo

Há o desejo pela luz,
Mas não se olha o céu
Com olhos nus;
Há o desejo do mel,
Mas é mais acessível o fel.Há o desejo,
Mas nunca se realiza o beijo;
Quer o caminho,
Mas não sabe seguir sozinho;
Quer amar,
Mas se recusa a perder o ar.Quer tantas coisas...
Coisas grandes e pequenas.
Mas quer, só quer, apenas:
Não move uma pena,
Sempre se apequena,
Não vai. Quer vitória sem luta,
Quer salário sem labuta,
Quer o sol sem se cegar com a luz,
Quer o céu sem levar sua cruz. E se põe em meu caminho,
Como a pedra de Drummond:
É o sangue em meu vinho,
É o fim do horizonte. Não, não o levarei às costas:
Em mim não se encosta,
Fica ali, sempre ali,
Olhando, querendo, tomando...
Vai montando o seu bando
De pessoas que vão ficando.Tento estender as mãos,
Mas assim não quer:
Quer só facilidades,
Ter sem fazer.
E vai ficando...
Mas eu (perdoe-me) vou indo.

A noite

A noite que me abre passagem, Também me interroga: Em cada passo desta viagem, Minhas certezas se revogam.
À noite, sozinho, Sou eu o meu caminho. Não importa o clima: faz sempre frio. O bafo da voz não é quente, é um gélido desafio.
Quantas vezes mais terei que cair Para desistir de levantar? Quantas vezes terei de ruir Para ver que não vale sonhar? Quantas vezes terei que cair Para descobrir que não nasci para voar? Quantas vezes terei de me excluir Para perceber que não pertenço a este lugar?
E a noite, com seu timbre estrondoso, Ri-se de mim, pequeno e medroso. Encara-me com seus olhos mais frios que o frio, E que correm como um rio. Eu me arrepio, Pois sei que estou por um fio.
Acontece que nunca tive medo de meu tempo breve, Se o tempo quiser, ele que me leve. Abro os braços, e faço meu canto:
Não vou deixar de cair, Pois estarei sempre a caminhar; Se eu me perder, Será por tentar me achar; Se as asas do sonho quebrarem, Construirei um avião; E, se tudo desmoronar, Farei do…

NATUREZA

Sou riqueza, grandeza, beleza Sou uma afronta à sua destreza Sou a interrogação, a incerteza Sou um desafio à sua esperteza.
Posso ser sua amiga, Fonte de alimento para sua barriga, Fonte de vida para seus pulmões, Inspiração às suas canções, Sustento para seu caminhar, Razão do seu prosperar...
Ah, mas não se confunda: Mesmo sendo vasta e profunda, Não sou inesgotável, inalterável: Sou, muitas vezes, vulnerável. Você me corta, mata, queima... Polui-me, extingue, desrespeita... Dou sinais, mas você teima; E, por sua culpa, o caminho se estreita.
Ah, sou paciente, mas não morta; Aviso, mas quase ninguém se importa. Então, revolto-me: Onde sou água, transbordo; Onde sou fogo, incendeio, Onde sou chuva, viro enchente (E você que não fique descontente: A culpa é sua); Onde sou devastada, sequidão; Onde sou desprezada, viro fome; Onde sou perseguida, faço-me extinta; Onde sou mar, maremoto; Onde sou terra, terremoto; E, onde buscam aconchego, faço-me solidão.
Precisava ser assim? …

Saudade

Saudade é o sal que dá sabor à ausência, É aquilo que resta daquilo que já se cumpriu, É uma presença oculta que se anuncia, É o adeus daquilo que de nós ainda não partiu.
Às vezes, por saudade, Ponho-me a te procurar, Mas sei que não vou te encontrar. Por vezes, quando este desejo de ter e reter me invade, Sinto como se me faltasse o ar: A respiração continua, mas há o desejo de parar. Porque saudade é água na boca, Porque saudade é aperto no peito.
Que coisa é essa, assim, tão louca, Que me faz incompleto, sem jeito? Que coisa é essa que me faz vazio, Não importa o quanto eu me preencha? Que coisa é essa que me traz o frio, Não importa o quanto o dia esquenta?
Essa “coisa” não é coisa, pois tem nome:  Saudade, o sentimento que não some.

O que está certo.

Lispector, Lispector... sem mais.

A luz

Em épocas de começo ou recomeço, sempre há uma música que acaba se tornando “trilha sonora” de minha vida – incrível isso. Por exemplo, quando ingressei na Etec “Francisco Garcia” (mais conhecida como Industrial) havia uma música de Milton que não saía de mim: SOLAR.      Ah, “Solar”! Até hoje uma bela tradução de mim, mesmo quando intraduzível! Cada uma de suas estrofes mostravam exatamente aquilo que eu sentia naquele lugar, até então, estranho repleto de pessoas estranhas. Nunca fui social e, na verdade, ainda não sou – então fazia da música minha companhia.           Amparava-me em cada verso, cada linha me era eterno aconchego em um momento turbulento. Você talvez me entenda se conhecer ou procurar a letra. Aliás, facilitarei seu trabalho: aí está ela:
Solar Venho do sol A vida inteira no sol Sou filho da terra do sol Hoje escuro O meu futuro é luz e calor
De um novo mundo eu sou E o mundo novo será mais claro Mas é no velho que eu procuro O jeito mais sábio de usar A força que …

Necessidade/Desejo

Letra de Arnaldo Antunes, Sérgio Brito e Marcelo Fromer traduzindo as diversas fomes que sentimos.

E você, tem sede de quê? Qual sua fome?

Esperança

Nasce de novo a cada instante – é mestre na arte de renascer. Há momentos em que fica calada, é verdade; há momentos em que se esconde e parece que nunca mais vai aparecer. Mas ela sempre volta. Para mim, ao menos, ela sempre voltou. Ela me empresta esse dom de renascer: dá-me forças, dá-me sonhos, dá-me fé – ou é fruto dela, não sei dizer. Vem e faz de meus términos recomeços; de minhas desinquietações, forças; faz de mim eterna novidade. Ela nasceu comigo e eu nasci com ela. Sem ela não me deito, não me levanto – nada faço. Percebo, então, que só posso viver com ela. Percebo mais: ela, frágil que é, só poder viver se houver fé. Frágil e pequena, mas não morre fácil – a vida (e a música “When You Believe”) nos ensina isso. Por isso viver não perde o sentido. E, já que ela renasce todo tempo, é sempre tempo de celebrá-la. Assim, só me resta agradecer e parabenizar... parabenizar a esperança, que não morre.

Carnaval

Abraço

Bota-nos numa só cadência.

Continuado

Chão de Estrelas

Sonhei que caminhava entre as estrelas, E era um sonho sonhar em tê-las tão perto. As estrelas eram de múltiplas cores, Eram repletas dos amores que faltam entre nós. Entre elas, eu nunca estava só: As estrelas e eu éramos nós; Éramos a união correta; Nas linhas tortas, éramos a escrita reta.
Sonhei que as borboletas eram estrelas Esvoaçantes com calda de fogo. Era tão bom tocá-las, vê-las, Que eu me sentia abraçado por braços de algodão. As estrelas levavam meus cansaços, eram a minha salvação.
Sonhei que pisava em estrelas E era perfeito pisá-las, Caminhar por cima delas. Elas brilhavam, apontando meus caminhos, Lançando-me fora do ninho, Trazendo-me a paz. E esse chão de estrelas era o meu céu, Quem me tirava a alcunha de réu, Eram a liberdade que eu sonhava.
E eu sonhava. Sonhava que caminhava entre estrelas que voavam, Que voavam e que eu pisava, Que eu pisava e me libertavam. Sonhei que havia um céu de estrelas E esse céu era o meu chão.

Equilíbrio

Confronto

E a borboleta me desafia. Olha-me lá de seu canto – silenciosa, à espreita. Ela me obriga a usar orações curtas. Não tenho opção: a presença dela me faz escrever assim. Não sei o que ela tem, mas algo nela me provoca. Talvez sejam suas asas, prenúncio do voo; talvez seu silêncio, prenúncio da ação; talvez sua presença, prenúncio de uma ausência futura. Sim. Ausência futura. Quando ela não estiver mais ali, restará o vazio – o triste e agoniante vazio.
          Não é só ela quem me desafia: qualquer inseto me soa como afronta. Os motivos são os mesmos: prenúncio de voo, ação e ausência futura. Quando me acostumo a vê-los, já se foram. Quando quero que se vão, ainda estão. Eu não dito mais nada, mesmo: eles decidem por si, ou por seus instintos – sei lá o que rege um inseto, não sei nem os motivos que ME regem.
         Mas a borboleta está lá. PA-RA-DA. ES-TÁ-TI-CA. Confrontamo-nos silenciosamente (quase isso, não fosse o “tic-tic” das teclas que aperto). Ah, ela não está n…

Sem tempo

Saudade do tempo em que eu tinha tempo para o tempo E que o tempo também tinha tempo para mim. Hoje nem vejo o tempo passar E ele, parece, gosta de me ignorar.
É, acho que não tenho mais tempo para lidar com o tempo. Pior: acho que ele é que não tem mais tempo para lidar comigo. Mas um acordo acho que eu consigo: Esquecemos um do outro, por enquanto; Mas, no entanto, quando a maré baixar, Voltamos a nos relacionar.
Relacionar de que jeito? Ora, faremos assim: Dou-lhe sossego E ele dá sossego a mim. Assim poderemos os dois ir mais devagar
E viver e amar e viver e amar...

Coisas

"Coisa" é a melhor palavra, a meu ver. Qualquer coisa que eu não saiba que coisa é, É coisa – pois é. Coisa desprende a necessidade do saber, É aquilo que eu sei que não sei – talvez nunca saberei.
Penso em coisas sem pensar em coisas, Porque sei que não preciso pensar nelas: Coisas acontecem até quando não pensadas, Coisas existem, mesmo que não imaginadas (Talvez justamente por isso).
Às vezes, temos a necessidade de coisar as coisas, Pois sabemos que, se não coisadas, as coisas podem não acontecer. Quando a coisa é coisada e dá certo, é uma coisa que não posso descrever; Mas, se por ventura a coisa der errado, não fico amarrado: faço coisas mais precisas.
Canso-me de tentar coisar a coisa, Desvisto-me das definições imprecisas e pouco concisas: Coisa é coisa. Coisa acontece, faz-se, esquece... Coisa não se define, mas não desanime: Coisas hão de coisar, digo, acontecer.
 Agora a coisa vai.