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Mostrando postagens de Janeiro, 2016

Venha!

Estrangula-me esta gula.
Esta fome que sinto de ti
E este apetite me matam!
Tu és prato raro,
És o barro do qual é feita minha carne.
Pegue este corpo e este coração de lata:
Eles já não são meus - são teus.

Enforca-me a ausência de teus abraços,
Sufoca-me a falta de teus braços.
Tu és caminho para os meus passos,
Inspiração para o meu cansaço,
És a coisa certa!

Venha, pega-me para ti, aperta-me;
Estou aqui, encontra-me;
Já não posso esperar, ama-me.
Não, tu nunca te atrasas:
És a hora certa;
És, do anjo, as asas;
És meu apoio, minha meta quando a dor aperta.

Venha!

Redescobrir

Querendo ou não, sou; Sabendo ou não, estou; Andando ou não, eu vou.
Desconheço-me, mas me procuro; Irrito-me, mas me aturo; Quero me achar, mas faz escuro.
Mas me basta a certeza De ser, estar e ir. Nisto mora a beleza: Em me redescobrir.

Saudade

Não tenhas medo!

Internado. Cinco anos de idade e estava internado. Motivo? Urticárias oriundas de uma reação alérgica ao corante. Inchado feito uma bola, vermelho e arranhado (por me coçar, nunca resisti a uma coceira).           Meus companheiros de quarto eram os melhores que eu poderia ter: um garoto queimado em cinzas ainda fumegantes e uma pirralha inconveniente que chamava minha mãe de Chica da Silva (maldita). Suas respectivas mães – graças a Deus por elas – também estavam lá.           Confesso que minha estadia não foi de todo ruim: houve momentos um tanto quanto engraçados. Aquilo foi uma mistura de céu, inferno, terra e mar: inconstância. Mas pelo menos minha cama (que, ainda bem, era mais confortável que a horrenda cadeira na qual minha mãe era forçada a dormir) ficava ao lado de uma janela que me dava visão do que acontecia do lado de fora daquele lugar – era uma vitória.           Nesses dias, internado, precisava encontrar meios de me divertir – e isso não é difícil quand…

Realizar

Águas rolaram

O mar se fechou, Não deu passagem. Em mágoas, afogou Os que não pertenciam àquela viagem.
O mar era de lágrimas, De sangue, O mar era páginas De um livro que se fechava, Uma história que se apagava.
O mar morava dentro daquele homem Que, triste, resolveu todo o amor afogar. O mar eram as esperanças que somem Quando tudo se desilude pelo olhar.
Todos que estava ali dentro, naufragaram; Os que estavam fora, de lágrimas se molharam.
O pranto rolou, O canto calou, O mar desaguou (E, ironicamente, Porque a fonte secou).
Hoje, esse homem perdido em tristeza, Olha-me, meio que sem olhar, Diz para eu não me perder na fraqueza Nem me afogar no mar de amar.


Amor...

Há o amor
E estou feliz.
Não sei sua cor,
Não sei o que ele diz...
Mas sei que há o amor.
Dizem que amor muda a gente,
Que faz esquecermos de nós,
Perdermos a voz,
E sentirmo-nos sós
Em companhia de outrem.
Há o amor sem cor,
Sem dor,
Sem pavor,
Sem calor.
É esse o amor que sinto,
Não minto:
Amo sem saber que o faço.
Amor lança sobre nós o laço,
E nos traz o cansaço
De sermos um só.
O amor dá um nó
E nos une.
A questão é:
Agora, o que nos separa?

Rotina

É um ritual de todos os dias: o homem – um senhor moreno e gordo – acorda antes do sol brotar no céu e vai ao bar. Claro que, assim, tão cedo, o bar ainda nem está aberto – mas o andar do homem é lento, trôpego, quase inexistente. Passa a manhã toda no bar, rindo alto e falando bobagens. Por volta do meio dia, quando o sol arde soberano no céu, ele resolve voltar para casa. Sim, ele precisa esperar que o sol brilhe alto no céu para voltar, acredita que assim a bebida surte melhor efeito: fermenta na barriga e faz com que ele fique ainda mais embriagado. Verdade ou não, com ele funciona. Duas horas da tarde, como de costume, ele desce a rua de minha casa. Sim, ainda está a caminho de sua casa, mas, como já disse, suas pernas não permitem caminhar mais rápido. Vem falando sozinho, trazendo alguns Halls na mão, talvez para disfarçar um pouco o bafo de cana azeda. Esse homem, neste estado em que agora está, desconhece a calçada: caminha no meio da rua. Passa uma moto ao seu lado, ele pare…

Desvendando

Vem a mim, olha-me; Invade meu ser, encara-me; Sem eu perceber, devora-me; Antes que eu possa ver, decora-me.
Vou a ti, cego-te; Invado teu ser, chacoalho-te; Não podes perceber, engulo-te; Antes que tu possas ver, imagino-te.
Vamos juntos, iluminamos; Invadimos o mundo, desvendamos; Sem perceber, rodamos; Antes que possamos ver, vivemos.
Um no outro, encontramo-nos. Correndo atrás de tudo, o nada. Sem sequer imaginar, sorrimos; Sem ao menos saber, caminhada; E, no fim de tudo, nova estrada.

As palavras e eu

As palavras batem à minha porta com veemência. A princípio, não quero abrir. Fecho-me a qualquer coisa que venha me procurar, não estou a fim de nada. Mas elas continuam, insistentes, numa batida que só eu ouço, como se precisem, unicamente, de mim.           A insistência me sufoca, é um excesso em mim. Sim, a batida é de dentro para fora e não o contrário. Elas não clamam para entrar, mas suplicam para sair – está apertado aqui dentro. Mas eu sinto que, mesmo com toda esta necessidade de soltá-las, não conseguirei escrever nada.           Então, ouço um sussurro. Elas desistem de bater, mas passam a dizer. Dizem que não preciso pensar em nada para escrever: elas guiarão minhas mãos. Fazemos, então, um acordo: para que não sufoquem, sento-me todos os dias com papel ou qualquer suporte que seja em mãos e permito que elas façam o que melhor entenderem.           As palavras e eu: acordo íntimo, carne e espírito, um só. Elas, como Eva, são crias de minhas costelas. Nascera…

SE DEUS QUISER

Se Deus quiser, um dia eu chovo, Saio desse morro-não-morro Transbordo-me, transcorro, escorro, E lavo a alma na água que me acalma E que sou eu.
Se eu puder, um dia broto Dentro de mim. Deixo de ser estático como foto E passo a crescer, caminho sem fim. E experimento meus próprios frutos, Desfruto de mim.
Se a vida der, quero conforto, Conforto da alma (Aquele que cabe na palma do sentir, A paz, o sorrir). Conforto do qual só desfruta um morto: Poder dormir sem penar, pensar, pulsar... E, ainda assim, quero não parar de cantar e viver.
Se Deus quiser e eu lutar, Talvez tenha fim minha espera: Perco-me, desaguo-me em meu mar Múltiplo, facetas que entre si cooperam; E faço que esse “um dia” seja hoje.
Se Deus quiser, passo a viver sempre o presente, Contente, sem saber que o vivo: Saber sem saber que sei, Não saber certo de minha ignorância (Querendo respostas, como criança, Só por querer).
Se Deus quiser, um dia, serei hoje.

Adeus, amor.

Naquele olhar, a luz do sol. Seu rosto irradiava luz para todos os lados, fonte primária que era. Mas apenas eu via, ninguém mais. Somente eu enxergava, ali, motivo de alegria; somente eu seguia aquele rosto, assim como o girassol busca o sol. Aquela figura arrastava meu olhar por onde ia, não podia controlar ou decidir entre olhar e não olhar. Seu corpo esguio era mar onde o meu corpo, rio que é, queria desaguar. Seu desenho era suave, suas cores corretas, seu toque macio e sua presença era divina. Como era possível existir assim, existência tão correta? Mas chegou o outono e o amor desnudou-se, perdeu as folhas. Uma mão impiedosa veio e cortou seus galhos, seu tronco. O amor despencou no chão e eu, impotente que era, estava apenas sentado olhando. Veio o inverno e minha alma congelou. Fique estático, paralisado. Não sabia onde escondera os cobertores e os agasalhos, já não havia mais amor para esquentar a alma. Nada de olhar a iluminar e aquecer, nada de corpo para desaguar. Era…

Anseio

Desejo alguma coisa que me dê alegria, Que faça folia, toque meu coração. Desejo algo que dê fim à monotonia, Que chore ou sorria, mas que seja a solução; O fim da agonia; do sim, o meu não.
Desejo algo que, enfim, me surpreenda. Entenda: há a necessidade do espanto. Desejo uma letra que eu aprenda, Que me aprenda, que seja meu canto.
Desejo o indesejável, o inimaginável O inesgotável, o instável. Desejo qualquer coisa Que meu desejo sobejo possa desejar.
Desejo a ânsia de desejar E sonho a ilusão de sonhar. Desejar um desejo novo, Sonhar um sonho inédito, Saciar a sede do susto, Que custa a me deixar.
Desejo, enfim, forças para lutar E empenho para alcançar. Eis que minha alegria e o fim da monotonia Precisam de uma única coisa: Que eu corra, caminhe sempre, atrás de minha utopia.