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Mostrando postagens de Dezembro, 2015

Do fim...

— O fim está próximo! – grita o pessimista (ou será otimismo da parte dele?). — O início também, recomeço! – grita o otimista (ou será pessimismo?) com voz de profeta. — É só a virado de ano – diz o realista. — É tempo de rever a vida! – digo eu. — Mas sempre tempo de viver! – concordamos.

Fome de justiça

O cachorro estava lá, quase morto. Deitara-se havia pouco tempo, talvez porque suas pernas magras não aguentavam sustentar seu pouco corpo. Estava trêmulo, sujo, abandonado – o pobre cão não tinha vez no mundo, por isso, lançara-se ali mesmo sem o mínimo sinal de esperança. O animal, no entanto, não permaneceria sozinho ali por muito tempo: poucos instantes depois, um outro animal se colocara ao lado dele: era um homem, mais sujo que o cachorro. Chegou abanando o corpo, com a língua de fora, correndo atrás do rabo – procurava a posição adequada para se deitar. Demorou-se nesse ritual cerca de cinco minutos, até que, enfim, se jogou aos pés do animal. Ele gemia, chorava, parecia que latia. Passaram uma, duas... cinquenta pessoas! Umas olhavam torto, como se o homem fosse um vira-latas e o cão um vagabundo; como se o cão pudesse pedir esmola a qualquer momento e, o homem, mordê-las (seria ele vacinado?); como se, cão e homem, mijassem nos seus pés como mijam em um poste. O cão olha para…

A benção, Pai

A benção, Pai! A benção porque a agonia não sai, O medo não vai E a humanidade não consegue conter seus “ais”.
Ah, meu Pai! Por que não aceitar Que seu Menino nasce todos os dias? Por que não acreditar Que Ele está sempre em nosso meio, Fazendo folia?
Pai! Meu Pai! Por que a solidariedade Não é coisa de todo o tempo? Por que a humanidade Não é boa a todo momento? Por que, meu Pai?
Ah, se entendêssemos Que a felicidade é coisa de agora! Mas não, sempre a deixamos para outra hora! Agora é tempo constante, Existe a todo instante E é, na verdade, todo o tempo que temos! Meu Pai, por que não aprendemos?
Meu Pai, aponte-me o caminho Que eu não quero andar sozinho. Quando tudo se desalinhar, Não me deixe desanimar. E, se não esquecer as dores velhas, Pegue-me pelas orelhas E me mostre o valor das cicatrizes!
Assim, talvez, diminuam minhas penumbras! Assim, quem sabe, eu seja melhor! Não, Pai, não me deixe ser pior! Que todos os dias sejam meu Natal E que eu não me prenda ao mal.

A benção, Pai!

Água Represada

Como colocar em palavras Aquilo que sinto? O simples fato de tentar fazê-lo Já me soa falso.
Minhas palavras são escravas Dos meus sentimentos e instintos, Mas incapazes de traduzi-los Sem que soem falsas.
Todas as verdades São mentiras quando escritas, Toda a bondade e toda a maldade São anuladas quando ditas.
Meus sentimentos são água represada Querendo romper a barragem. Há, em mim, enchente amargurada Clamando por passagem.
Mas eles não têm vazão, Porque não sei dizê-los Sem alterá-los. Não têm vazão, Porque não sei escrevê-los Sem estraga-los!
O que sinto é tão sublime! Mas minhas palavras não me redimem...
O poeta perdeu os versos E o homem perdeu as forças, Porque no peito há universos, Realidades que sufocam Por não caberem em rimas!
Já que não sei escrever, Já que desaprendi o dizer, Sento-me rente à porta Que separa o que sinto daquilo que penso: Sei que, a qualquer momento,

IRREGULAR

Encontro-me cansado, exaurido. Estar cansado é coisa que me estressa, estar estressado é coisa que me cansa. Não sei qual deles surgiu primeiro: cansaço ou estresse? Tanto faz! Sei que estão de mãos dadas comigo, um à esquerda e o outro à direita – e isso já é incômodo o bastante. Engraçado isso... cansar-se e estressar-se em tempo de fazer justamente o contrário! Talvez eu nunca tenha feito o contrário: quando foi a última vez em que não fiquei cansado ou estressado? Quem sabe foi ontem, quem sabe nunca! Estou tão farto que mal consigo acessar minha memória.  Falando nisso, saiba que estou inacessível: a você e a mim. Inacessível não por ser inalcançável – aliás, alcançar-me não é matéria que carece muito de esforço – mas por estar de portas fechadas. Fechadas? Mais que isso: lacradas, vedadas. Até quando? Talvez para sempre, talvez por dois segundos! Não... não faço questão de ser constante, estável, sempre o mesmo. Não, não quero ser aquele a quem todos decifram com facilidade, que p…

Doação

Olha, meu bem, a vida está sangrando! Esse líquido rubro, espesso e grudento, Torna meu caminhar mais difícil.
Como sair do lugar, Se o sangue é areia movediça? Como ficar no lugar, Se o sonho de seguir me enfeitiça?
O sangue tem um cheiro adocicado, O sangue tem o cheiro do pecado, O sangue tem o cheiro da morte (Ou será o cheiro da vida, Que, apesar de tudo, segue forte?)
Agacho-me para prová-lo Seu sabor é meu sabor. Percebo: é a mim que experimento.
Olha, meu bem, minha vida está sangrando. Este líquido, quase sólido, sou eu. Olha, meu bem, eu estou passando Em cada gota deste sangue, eu.
Deste sangue nasce o poema; Nele, o dilema de ser quem sou. Quando não sou suficiente, transbordo Vou a bordo das palavras, transcrevo-me.
Agora vê? Não, não é ao poema, mas a mim que lê. Se sou doce ou amargo, não se zangue: As palavras foram escritas com meu sangue: Ao lê-las, você o bebe Ao lê-las, brinda comigo.
E o sangue, meu bem, Escorre do meu corpo e resolve habitar o seu.
Doação.

Momentos

Que vem lá?  Que vem lá? O futuro – brinca de criar É, de fato, prematuro – quando vejo, já nasceu. Vem depressa, vem sem jeito, tocando o que é meu.
Que quer ele? Quer brincar, não sei de quê Verdadeiro trapaceiro vem correndo, Vem fazendo toda gente sonhar!
Que vai lá?  Que vai lá? O passado- de fininho a se afastar Eu, de fato, não o aturo: quando vejo, já morreu. Vai cansado, revoltado, carregado de lembranças. Leva minhas esperanças, deixa coisas que amei.
Que quer ele? Que o esqueça! Que não fique na promessa, Quer que cresça! Vai-se embora, Mas, não chora, deixa outro Que aqui está? O presente, no Agora residente, vem lutar. Eu, de fato, não o vejo – esse tempo tem molejo! Quando olho, já se foi.
Que quer ele? Quer a vida! Quer que entre na corrida, Quer que sinta! Acontece no momento Aproveito, não lamento:
Ele é tempo de mudar!

Canção do arrependido

Cadê meus óculos? Não vejo nada (que me sirva de consolo) Olha, os ósculos (dádivas de outrora) Marcam momentos (a traição de agora).
Dê-me os óculos Que cego não quero andar Quero ver o que acontece Para enxergar meus motivos de lutar.
Será que me tapa os olhos para me proteger? (Eu nem sei quem é você!) Será que a visão me fará tremer? (Pior é tremer sem saber o porquê!)
Será que tem medo do que vou ver? (Tenho medo de não saber!) Será que acha que vou me assustar? (Há tanta coisa pela qual lutar...)
É, não devia ter lhe dado poder. É, antes do ceder, deveria vir o conhecer. É pior saber que existem mais como você. Pior: há mais como eu, que em tudo crê!
E eu nem sabia quem era você... Deixei que me tapasse os olhos, Não quis ver. E eu nem sabia quem era você... Deixei que fizesse de meus sonhos entulhos, Não quis saber.
Mas hoje quero meus óculos, Quero, de novo, enxergar (Destape meus olhos, solte-me: eu quero passar). Cansei de dormir, resolvi acordar; Cansei de me anular, decidi aparecer (Ei, me solte, eu …

Eternidade

Você anda distante de mim, eu sei. Já há algum tempo que você está assim, distante de tudo, longe de todos e ausente – tanto que dói. Não sei o que está acontecendo, você estava tão bem... Lembra-se daquela quarta-feira de agosto do ano passado? Você queria tanto ir ao parque, sentar na grama e fazer um piquenique olhando o riacho – o velho riacho, límpido e majestoso, só não é mais bonito que o vetusto coqueiral, que você adora. O dia estava lindo, cheirava a sonhos e tinha cor azul; seu irmão, insuportavelmente agitado, brincava de esconde-esconde; as borboletas passeavam pelo ar, com tanta graça que pareciam você; e eu, com uma revolução de sentimentos gritando no peito, segurava os seus macios cabelos, que não são crespos como os meus. E passamos o dia todo assim, folgados, olhos nos olhos e o coração num só ritmo. Não entendo o que está acontecendo: você assim, distante; eu aqui, deitado; e esses homens, uniformes brancos e de luvas nas mãos, olham-me e afirmam que sou um sobrevi…