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Elide

           Elide... ainda me lembro da maneira com que ela ensinava o nome à classe: formava logo um “L” e um “D” com a mão, para que não houvesse dúvida. Estava lá para substituir Rosângela, nossa professora de Língua Portuguesa, e conosco permaneceria por cerca de dois meses. Normalmente não simpatizo com substitutos, mas ela – embora não ouvisse o frágil “presente” que me brotava da garganta e me deixasse com falta – tinha algo de efetiva.
Ensinava-nos técnicas de leitura (é bom que a façamos de maneira silenciosa, sem mexer sequer os lábios), sobre os verbos e sobre como sermos pessoas adultas – sim, o chamado Currículo Oculto que a Pedagogia tanto ensina, é realmente esplêndido: mesmo que não fosse este o intuito, ela nos passava animação com a vida e amor por aquilo que pregava. Amor por aquilo que pregava... está aí o diferencial que fez com que eu a assumisse como oficial em mim.
Falava sobre seu filho, dizia que ele era lindo! Descrevia seus traços com brilho nos olhos, traduzia seus gestos nos seus... era toda prenha de orgulho por seu rebento, mostrando que a gravidez não termina quando damos a luz ao filho: a gestação continua por toda a vida; é gerado a cada dia um amor novo, maior. Talvez por isso a tenha escolhido como corretora das coisas que escrevo, talvez por isso a identificação: somos dois a ter amor por aquilo que fazemos, a dar luz às coisas e continuar gerando amor àquilo que damos vida.
Ela e eu, as palavras e nós. Não pense vocês que nossa relação é estritamente profissional, somos amigos. Parceiros no ofício de eternizar a poesia, mesmo que por alguns minutos; companheiros na tarefa de dar sentido às letras, unindo-as em palavras; e dar sentido às palavras, unindo-as em versos.
Ela e eu, estreitando as distâncias entre o impossível e o mundo, porque diminuímos a distância entre nossos sonhos e nós. E, se hoje posso diminuir as lonjuras, devo isso, em parte, a ela: ajuda-me a aperfeiçoar o, como ela diz, dom que me foi dado; e, assim, ajuda-me a aperfeiçoar a mim mesmo – por isso, não há como não ser grato.  

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