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Mostrando postagens de Novembro, 2015

Amores imperfeitos

Veio me dizer que encontrou o homem da sua vida. Esta minha filha é mesmo assim, acredita em amores-perfeitos que nascem além do horizonte dos jardins e em príncipes encantados que, com seus cavalos brancos, chegam para amar as lindas donzelas. Mas, acontece que esse homem, Roberto, que ela faz questão de apelidar de Robertão, de príncipe não tem nada: levemente estrábico, de pernas bambas, desajeitado que só ele e, ainda por cima, franzino – assim me parece na foto que ela me mostra. Eu também, nos meus tempos de mocidade, acreditava que a mais bela princesa me brotaria dos sonhos, mas quem me veio foi Matilde, mulher com quem me casei. Não que não a tenha amado: amei aquela mulher com a fidelidade de um cão – jamais a traí, jamais sequer pensei em outra. Quero dizer que ela era, assim como Roberto, desengonçada; mas era o melhor que eu poderia ter, porque também nunca fui bonito. Roberto virá aqui em casa amanhã, provavelmente me tomará pela mão, dirá que foi um prazer me conhecer e…

(In)adequação

Está tudo adequado: O véu a cobrir os rostos, Os fones a tapar os ouvidos, A ignorância a cobrir as bocas...
Está tudo adequado, Não há nada a ser mudado: Há fome, e daí? Há roubo, fazer o quê?
Está tudo certo como está, Não há motivos para lutar Cala-te mesmo, é melhor Não faças nada, é pior
Não temos nada, e daí? Há injustiça – vamos sorrir! Olha: estão nos roubando, Mas fazer o quê? Não estão cumprindo, Mas... cobrar para quê?
Vistamos o véu da ignorância, O “cala-te” sem esperança Fiquemos mudos, como o determinado O que há em nós para ser mudado?
(E, para terminar, sussurra-me:)
Deixa assim, tudo está adequado.

Desencontrado

Esqueceu-se. Que mal há nisso? Por acaso não somos todos nós fadados ao esquecimento? Não é cotidiano esquecer? Não é rotineiro ser esquecido? Às favas com tudo isso! Esqueceu e pronto. Ou quase isso, talvez ponto, talvez vírgula. Fico com a vírgula. O fato é que precisava falar a seu vizinho algo de extrema importância, mas lhe faltava o nome do sujeito. Qual seria? Não é verdade que moram lado a lado há dezessete anos? Então por que a ausência do nome? Só agora, rente à porta de entrada ameaçando bater, nota que desconhece o homem que vive próximo a ele. E quanta distância há entre essas almas tão próximas! Levou a mão à porta, quase a tocou. Mas não o fez e nem o faria enquanto não recordasse o nome do meliante. Quando se esquecera dele? Quando a rotina se tornara monótona a ponto de não fugir dela ao menos para olhar ao lado? Perdeu-se em reminiscências. Era, de novo, criança a implorar o colo da mãe; novamente menino a jogar bola com os garotos vizinhos e sabia o nome de cada um. D…

Metanoia

Atendendo a pedidos, nasce Metanoia - a visão das diferenças sob um ponto de vista mais inocente que o meu, talvez porque dei as mãos a meu eu-menino escondido em mim (às vezes nos encontramos).
METANOIA


Que foi feito de nós? Que foi feito do amor? Será que temos, mesmo, Que atar os nós da dor?
Que foi feito de nós? Que foi feito da cor? Por ela deixou de colorir o mundo E passou a ser motivo de desamor?
Que foi feito de nós? Por que andamos tão sós? Precisamos mesmo nos separar? Há a necessidade de segregar?
O que foi feito de nós? Por que não admitimos que o motivo do amor É o próprio amor? Precisamos matar, julgar, ferir, sangrar Um coração que resolveu se doar A um igual e, enfim, se amar?
O que foi feito de nós? Por que a fé que professamos não nos socorre? Por que o sangue ainda escorre? Por que matamos pela fé? Não é ela quem nos ensina a amar quem somos E o que o outro é?
E o que será feito de nós, Pequenas crianças com sede de vida? Será que aprenderemos a viver com as diferenças, Amar os sonhos …

Guardei-te

A verdadeira beleza, onde reside?
Na luz dos sonhos teus,
À sombra dos atos meus.Cada palavra tua tem a força de mil trovões:
Abrem passagem pelo infinito, rompendo limites.
Risos teus fazem com que nasçam os risos meus
Oh, menina! A você, escreveria todas as canções,
Levantaria os olhos ao mundo e o reinventaria – somente teu
Inventaria palavras novas, só tuas e, se me permitistes,
Navegaria por todo o universo em busca de teus desejos
Ah, menina, mas eu nasci humano!Não sou Deus, para reinventar a vida
Ou poeta, para escrevê-la só para ti.
Guerreiro não nasci, viajante não cresci...
Um homem comum, sem saída
E nada mais...
Incapaz de dar nome às coisas, de calar as guerras, inaugurar a paz...
Resta-me apenas meus sonhos e meu coração – que faço de cofre:
Aqui, estás guardada, amiga – e já não sofres.

De como nascem as histórias...

Perguntaram-me, certa vez, se desconheço o amor – pergunta boba, é verdade. Como eu poderia escrever se não amasse? É preciso amor para que nasçam as palavras: amor é um susto, chega quando menos esperamos – as palavras também. Então, para mim, não existe tese maior: é preciso amor ou o seu avesso, por qualquer coisa, para que seja possível gerar ou narrar histórias. Sempre fui recluso, nunca sozinho. Sou amante, desde menino, das pequenas coisas, dos silêncios que edificam. Sempre gostei de ouvir histórias, sempre quis poder contá-las. Desde pequeno, sou ajuntador de sonhos; colecionador de memórias e momentos; sou grito pelas mãos, voz que fala no papel: eis o amor. A primeira vez que escrevi, assim, por vontade própria, eu era garoto de uns seis anos de idade. Onde encaixei as palavras? No nome de minha avó, Clarice. Era o chamado acróstico, aquele molde de inicias que sustentam os versos. Foi amor desde a primeira palavra: ali, um novo significado para as minhas mãos; ali, nascia o …

Elide

Elide... ainda me lembro da maneira com que ela ensinava o nome à classe: formava logo um “L” e um “D” com a mão, para que não houvesse dúvida. Estava lá para substituir Rosângela, nossa professora de Língua Portuguesa, e conosco permaneceria por cerca de dois meses. Normalmente não simpatizo com substitutos, mas ela – embora não ouvisse o frágil “presente” que me brotava da garganta e me deixasse com falta – tinha algo de efetiva.
Ensinava-nos técnicas de leitura (é bom que a façamos de maneira silenciosa, sem mexer sequer os lábios), sobre os verbos e sobre como sermos pessoas adultas – sim, o chamado Currículo Oculto que a Pedagogia tanto ensina, é realmente esplêndido: mesmo que não fosse este o intuito, ela nos passava animação com a vida e amor por aquilo que pregava. Amor por aquilo que pregava... está aí o diferencial que fez com que eu a assumisse como oficial em mim. Falava sobre seu filho, dizia que ele era lindo! Descrevia seus traços com brilho nos olhos, traduzia seus ges…

Despedida

Passou tão rápido quanto o vento
Durou um breve momento
Ao qual damos o nome de vida.

Restou o aperto no peito,
O amargo na boca
E o vazio na cama.

Restou teu sorriso na foto,
Os teus sonhos em meus sonhos,
E teu beijo na testa.

Tu passaste, eu fiquei.
Comigo, a saudade incontida
E a lágrima no rosto.

Tu passaste, eu fiquei
Comigo, tua eterna presença,
Porque nem o tempo nos separa.

Comigo, aquela certeza
Que tu recitaste com leveza
Antes de nos despedirmos:
Somos eternos um no outro
- O laço ainda nos une.


Reminiscências de minha terra

Os lugares são as pessoas. São as vidas que abrigam, as mudanças que sofrem. Os lugares são meu jeito de olhar para eles. Descoberta que faço em uma curta, mas produtiva, conversa com meu avô.    Em nosso passeio de carro, ele viajava em suas lembranças- sua viagem preferida. Aponta um galpão e diz:    — Mococa já teve ferrovias, João. Ali mesmo passavam os trilhos... Legal isso, passear de trem quero dizer, dentro dele outras vidas, fora a contemplação. Contemplar a vida!    “Contemplar a vida...” repito em pensamento. Frase simples, mas de muitos significados. Sigo o conselho de meu avô e resolvo experimentar a contemplação.    Da janela do carro avisto um menino. Roda um pião contente da vida, pobre, o sol brilha alto, indiferente à pobreza de muitos. Ao garoto não falta nada, tem amor e é feliz. O pião, provavelmente feito pelas mãos calejadas do pai, continua a girar.    De repente, a curva. Não vejo mais o menino, mas os pensamentos continuam. Nos olhos do menino, a essência do…