Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2015

Esperança

Não deu certo. O que poderia fazer? Tudo quanto foi preciso eu fiz, não há remorsos. Passei seis meses com ele, o homem que meu tio arranjou. Sim, nossa união foi arranjada, não havia outro jeito: migrei de outra cidade para cá depois que meu primeiro marido, meu amor, faleceu. Deixou-me com dois filhos, mas com uma pensão da qual não posso reclamar. Não sou instruída, por isso conto minha vida: para que a escreva para essa mulher que não sabe fazê-lo.             Meus parentes roubavam-me o dinheiro, por isso vim. Meu tio e um homem me esperavam. No começo tudo funcionava bem: as crianças sempre foram bem tratadas, o problema éramos nós dois: brigávamos com frequência, a mesma em que ele me pedia dinheiro emprestado - quase sempre. Não deu para ficarmos juntos. Foi preciso dar um basta: peguei meus filhos, minhas coisas e saí.             Na casa do tio dormíamos e comíamos mal, péssimos tempos, mas necessários. Não passei muito tempo com ele, que logo me oferecia a outro h…

Madame S.

Queria sair de casa, do mundo, de dentro de si. Seu peito sustentava um coração cansado dos limites da carne, que queria abandonar o corpo e dar um salto mortal em direção à vida. Desta vez, cérebro e coração concordavam: o melhor era mesmo fugir.
Madame S. - o leitor que lhe atribua um nome - era sempre incompreendida, talvez por ser adiantada ao seu tempo. Em seu peito, fervilhavam emoções que eram conflitantes entre si, embora paralelas. Emoções extremas que, de tão distantes, quase se tocam, tão longas e tão tênues as linhas que as separam. Madame S. é misto de céu e terra, dor e amor, chão e mar, alegria e sua ausência. Não, talvez não seja nada disso, talvez seja muito mais. Será que também eu não a compreendo? Mulher tão natural quanto o próprio vento, pondo minha alma a ninar! Que fique claro que não posso dizê-lo! Não posso sequer tentar fazê-lo! Quem quiser compreendê-la que conheça primeiro a poesia, que toque e ouça melodias, que se entregue à vida, que seja home…

Infância

De repente, cessa-se o desejo de crescer. O cansaço do envelhecimento é inevitável: hora ou outra, todos iremos passar por isso. Eu, embora sedento de futuro, também sinto a ausência do tempo passado. Infância: aquele era o tempo das tardes passadas brincando na areia, correndo nas ruas, transformando qualquer pedaço de madeira no maior brinquedo do mundo. E recusava os brinquedos comprados: ganhava-os apenas para abandoná-los num canto. Gostava mesmo dos piões e estilingues de meu avô, das carícias de minha avó, dos abraços de minha tia, travessuras com minhas irmãs, e beijos de minha mãe. Gostava do eterno! Ser criança é a melhor coisa do mundo! É ser feto fora do ventre, feliz à toa e sempre sedento de novidade. E eu via o mundo com olhos humildes, sempre belo, eternamente novo! Não havia nada como as dores de agora, nada de irritações, de tardes de tédio, nada de buscar o para sempre oculto segredo da felicidade – era feliz e bastava. Ah! Quem me dera ser eterno! Mas o ciclo da vida…

Das coisas tuas

Tuas pernas tão minhas Teus lábios tão meus Meus olhos tão teus Teus cabelos, só meus Teus gestos, tuas linhas...
Ah, mulher! Tanta coisa em ti para ler Tanto há em ti para entender Tantos mistérios para desvendar Tantos medos para calar... E eu só sei devorar-te com o olhar!
Ah, tuas curvas, voltas tuas! Ah, teu sorriso, mistério teu! Minhas esperanças vagam nuas Nas voltas dos sonhos meus
Devoro-te... Decoro-te... Aprendo-te... Desvendo-te...
E tua coisa toda certa Tua mente tão aberta Tua boca, tão esperta Tua pele, tua íris Os teus olhos – arco-íris Tua voz, minha paz E essa coisa, tua, tua, e só tua É que me faz... Faz-me teu, teu, e só teu

O dizeres (calado)

Segue dando forma a teus silêncios, menino! Segue! Impressiona-te: eles dizem muito de ti. Leva consigo todas as tuas marcas, tuas formas... Encontra sustento em teus olhares – que ainda não vi. No não dito, há muito dizendo Como no dito, há muito que permanece calado. Impressiona-te: há coisas que são melhores ditas em silêncio. O teu silêncio, às vezes, é o que melhor te descreve – escreve.